Conformado com o trivial

A temporada do futebol brasileiro terminou com a torcida do Fluminense exaltando seu time de guerreiros. Vontade e garra são ingredientes de qualquer esporte, é básico, mas por aqui a importância disso tem sido perigosamente maior, nos bons e nos maus momentos. É como se não houvesse nada mais importante para definir uma equipe e impulsioná-la que o espírito de luta.

Paulo Calçade, O Estado de S.Paulo

13 de dezembro de 2010 | 00h00

O campeão é o vencedor de uma batalha pelo espaço, de divididas com o sangue estampado nos olhos como prova do desejo. Nada como um carrinho daqueles em que o jogador desliza para fora do gramado, na inútil tentativa de salvar uma bola que jamais será alcançada. Como o torcedor gosta disso, como se ilude tanto!

Perigoso. Há mais gente preocupada em ter um bando de guerreiros para torcer do que um de futebol, formado por gente capaz de driblar e de passar a bola com perfeição. A situação não é desesperadora, mas ouvir esse papo de time raçudo o tempo todo incomoda demais. As novas gerações de torcedores, adestradas no Playstation, vão se formando num ambiente preocupante, entre a plataforma virtual e a realidade inibidora do talento.

Identificar a ausência de arte no futebol brasileiro é óbvio, assim como atribuir a situação apenas à exportação dos melhores jogadores. Mais que isso: faltam desejo e ambição. Preste atenção ao Barcelona, time das três indicações para a Bola de Ouro.

Em janeiro, o prêmio ao melhor do mundo será de Iniesta, Xavi ou Messi, talentos criados em La Masía, a cantera do Barça. A razão do sucesso está numa divisão de base que não se presta a ser depósito de apadrinhados nem se preocupa em vencer a qualquer custo. A vitória é fruto de uma ideia, de um estilo que levou o clube a uma série de conquistas, além da seleção espanhola ao título mundial.

O Barcelona é posse de bola em torno de 70%, passe preciso, toque de primeira, mobilidade, velocidade e paciência, alternância de ritmo, inversão do lado de jogo. A questão não é copiá-lo, como se houvesse por aqui um Xavi mal compreendido, escondido num campinho de terra. Vai além, é perceber a possibilidade de estabelecer um estilo baseado no talento e trabalhar por isso.

Com uma ideia e excelentes jogadores, a construção da equipe catalã está no futebol solidário, no jogo colaborativo. O talento sobressai sempre, resultado do coletivo. Hoje, para começar uma carreira em La Masía é preciso entender isso. Basta observar Messi e suas jogadas geniais, não há desperdício, o argentino joga por ele e pelo grupo.

O Barcelona também não merece ser definido como um time de guerreiros? Atacar e defender com a máxima eficiência parece simples para uma equipe quase sempre em vantagem numérica no meio de campo, com e sem a bola.

Os clubes brasileiros estão carentes de ideias, estão conformados com o simples, com o trivial. E assim o tempo vai passando até que a pobreza técnica e tática seja dominante. Por isso, é necessário intervir na formação, na base. Os blaugranas não podem ser os únicos capazes de fazer isso bem feito. Um país reconhecidamente talentoso como o nosso há de ter a capacidade de reinventar o seu jogo. Ou de retomar um estilo que já foi nosso e hoje babamos por ele.

Essa conversa de time de guerreiros é perfeita para a maioria dos treinadores. No lugar de um trabalho autoral, como o Barcelona de Guardiola, vemos em campo o espelho daquele lutador que anima o banco de reservas com suas performances tresloucadas. Com dizia Nelson Rodrigues, "sem paixão não dá nem pra chupar um picolé".

E o nosso está derretendo.

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