Conforto não é luxo, é respeito

Adoro cinema. Mas confesso, tive de brigar um pouco para desenvolver esse gosto. Na época de minha adolescência, início da década de 80, era complicado frequentar esses lugares. Como a indústria cinematográfica não passava por seus melhores momentos, ficávamos reféns de filmes classe B. Eles eram tão ruins que os títulos que mais chamavam a atenção, invariavelmente, traziam a inscrição "Proibido para menores de 18 anos".

Wagner Vilaron, O Estado de S.Paulo

09 de dezembro de 2010 | 00h00

Resultado: só conseguíamos entrar para assistir aos filmes dos Trapalhões. E não foram poucos. Mas a aventura não estava restrita a Didi, Dedé, Mussum e Zacarias. Hoje entendo porque o ingresso era tão barato. Vivíamos uma odisseia dentro do cinema. Primeiro precisávamos descobrir uma região da sala onde o som nos permitisse compreender ao menos os diálogos. Em seguida, a missão era encontrar um assento que não estivesse quebrado. Eles eram de madeira e tão desconfortáveis que muita gente levava almofadas para aguentar ficar ali durante duas horas.

Nada a ver com o que temos hoje em dia. Agora desfrutamos de uma quantidade enorme de títulos e gêneros para todos os gostos. As salas são menores, mais otimizadas e repletas de tecnologia de áudio e vídeo. Tudo para fazer com que nos sintamos quase parte da trama. Basta assistir a algumas películas em 3D. E as poltronas? São todas estofadas, muitas delas reclinam, têm porta-copos. E as que ficam nas fileiras laterais são ligeiramente inclinadas para o centro a fim de evitar dores no pescoço.

O que me fez contar essa história? Algumas declarações que ouvi ao longo deste ano sobre estádios de futebol. Não é pequeno o número de pessoas que defendem a utilização de muitos deles na Copa de 2014 sem grandes reformas. Afinal, há décadas esses locais recebem espetáculos. Sendo assim, nada que uma tinta aqui, uma massa ali não resolva. Voltei a notar isso nos últimos dias, durante andanças pelo Footecon (organizado por Carlos Alberto Parreira), no Rio.

Entendo e compartilho do receio de ver dinheiro público empregado na construção e reforma de arenas. A solução, nesse caso, é fiscalizar, divulgar irregularidades, provocar a reflexão da opinião pública, e não condenar o torcedor e os profissionais que trabalham no universo esportivo a uma estrutura que remete às décadas de 50, 60, 70. Essa nostalgia eu não tenho. Defender que o público brasileiro não merece ter acesso a estádios mais confortáveis, mais tecnológicos é a mesma coisa de condena-lo a voltar ao cinema de poltronas de madeira com áudio de um toca-fitas.

Corinthians. Andrés Sanchez vive um dilema. A chapa que idealizou para a próxima eleição do Corinthians, que deve acontecer em dezembro de 2011, ameaça rachar. E no centro da polêmica está uma queda de braço, que muitos no Parque São Jorge consideram apenas um choque de vaidades, que envolve o ex-diretor de futebol Mário Gobbi, que na terça-feira anunciou seu afastamento do cargo.

A ideia era colocar o empresário Roberto Andrade, atual vice-presidente, como seu sucessor. Gobbi seria indicado para a presidência do Conselho Deliberativo (CD). Tudo corria bem até algumas semanas atrás, quando o ex-diretor de futebol começou a dar indícios de que poderia mudar de ideia. Hoje, Andrés trabalha com a iminência de ver sua base política desestruturada pela possibilidade de o grupo ter dois representantes na eleição.

Palmeiras. No Parque Antártica a situação não é diferente. Salvador Hugo Palaia busca marcar território como principal nome da situação, que tem também o empresário Paulo Nobre na sucessão, e busca participar da reformulação do futebol. Tanto a lista de reforços do técnico Felipão quanto a renovação do patrocínio de camisa passam por sua mesa.

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