Confronto de peso

Dois grandes atacantes. Dois centroavantes de seleção. Dois craques decisivos, os dois com experiência em copas. Dois jogadores com histórico de problemas pessoais. Dois atletas que vivem às turras com a balança. Dois ídolos, das duas maiores torcidas do País. Dois rivais dentro de campo. E, fora de campo, dois rubro-negros de coração. Não adianta negar. Em que pese a importância do clássico Corinthians x Flamengo, pelas oitavas de final da Libertadores, todas as atenções do mundo do esporte estarão voltadas menos para o duelo entre times e mais para o duelo entre homens: Ronaldo x Adriano. Como diria Nelson Rodrigues, o resto é paisagem.

MARCOS CAETANO, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2010 | 00h00

Evidentemente, não é possível colocar os dois jogadores num mesmo patamar. Duas vezes campeão do mundo e maior artilheiro de todas as copas, Ronaldo é um dos grandes da história do futebol mundial, enquanto Adriano, muito por conta de sua própria vontade e decisões erradas, jamais entrou para valer nesse grupo. No entanto, se cuidasse do físico e ainda estivesse jogando pela Internazionale de Milão, uma das equipes mais vencedoras da última década, na qual era ídolo quando largou tudo para retornar às origens, o Imperador provavelmente estaria, hoje, disputando as eleições de melhor do mundo. Já Ronaldo, que também jogou pela Inter, teve mais cabeça na hora de escolher onde jogar e, salvo quando foi parado pelas contusões que o perseguem, sempre conseguiu brilhar e marcar muitos gols pelos clubes que passou.

Por outro lado, se analisarmos o rendimento dos dois craques na última temporada, a briga fica equilibrada. Enquanto o Fenômeno foi o grande nome do primeiro semestre do ano passado, com gols de antologia e os títulos do Paulista e da Copa do Brasil, Adriano dominou o segundo semestre, quando levou o seu Flamengo ao sexto título brasileiro. Se o confronto da Libertadores tiver os dois craques jogando em alto nível, será inesquecível. Por outro lado, se eles jogarem como nas últimas partidas, será um confronto para esquecer. O choque com o companheiro de venturas e desventuras vale mais para o Imperador, que ainda sonha com a convocação para o Mundial. Ronaldo já jogou a toalha, desde o Brasileirão 2009, quando perdeu a batalha para a falta de motivação e, consequentemente, para a balança. Se sair vencedor, jogar bem e marcar gols, Adriano carimbará seu passaporte. Mas, se nada disso acontecer, Dunga terá que rever suas alternativas.

Mano Menezes acaba de declarar que Ronaldo jamais deixou de fumar seus cigarrinhos - enquanto Adriano de vez em quando se vê às voltas com a bebida. Uma pena. Pois, com o imenso talento que têm, fico imaginando como poderiam estar voando em campo, ainda hoje, esses dois atacantes tão temíveis e poderosos quando estão com pelo menos 80% da condição física ideal. Tivessem eles a vida regrada e o cuidado com o físico de um Cafu e o Brasil poderia ter um ataque de peso - e não exatamente pesado - para a África do Sul.

Com os dois gigantes fora de combate muito mais por escolha própria do que por obra do destino, quis o destino que outra dupla de atacantes, muito mais leve, ganhasse espaço na convocação para a Copa. Falo de Robinho e Neymar. O primeiro já está na lista, enquanto o segundo vê suas chances aumentarem. Não insistirei muito no assunto, para - já que é de peso que estamos falando - não aumentar o peso na consciência de Dunga. Mas a verdade é que a dupla do Santos dificilmente resolverá sozinha a questão do ataque. Não há linha dianteira sem um grande homem de área. Felizmente, temos Luís Fabiano, nosso único centroavante de ofício, com carteira de trabalho assinada e experiência prévia. Sem o Fenômeno e o Imperador, o nosso destino está, mais do que nunca, nos pés do Fabuloso. Se por alguma razão ele não puder jogar a Copa, um dos dois "gordinhos" terá que entrar num regime de emagrecimento urgente.

Caso contrário, adeus homem de área, adeus hexa.

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