Conselhos a Neymar

Conselhos não são exatamente o que se espera dos cronistas esportivos. No entanto, depois de refletir sobre o que tenho visto nas últimas semanas, fiquei com vontade de aconselhar um atleta em especial: Neymar da Silva Santos Júnior, o jovem craque Neymar, em quem eu o Brasil depositamos quase todas as esperanças de um ressurgimento técnico da seleção brasileira nos próximos Jogos Olímpicos e na Copa de 2014.

MARCOS CAETANO, O Estado de S.Paulo

23 de junho de 2012 | 03h04

Eu adoraria poder conversar durante algumas horas com o Neymar. Além de um jogador talentosíssimo, ele me passa a impressão de ser um tremendo boa praça, um bom garoto. Tenho orgulho de ter publicado, em março de 2009, quando o menino era apenas uma promessa, uma coluna intitulada "Joia da Vila". Três anos depois do texto que destilava esperança, Neymar é uma realidade. Mas uma realidade que inspira preocupação, que requer alguns conselhos. E aqui vão eles, em linguagem direta e pessoal.

O primeiro conselho a você, Neymar, é este: esqueça Pelé. Ou melhor, lembre-se dele, inspire-se nele, mas saiba que ninguém jamais será como o Rei. Quando tinha a mesma idade que você, no dia em que saiu aquela minha coluna de 2009, Pelé já era campeão do mundo com a seleção.

Assim, se alguém vier com a conversa de Pelezinho para cima de você, diga logo: "Não quero e nem posso ser o novo Pelé. Tento apenas ser o melhor Neymar possível". E acrescento: esqueça Messi, também. Sim, um dia você poderá jogar mais do que o genial argentino, mas esse é um assunto que caberá à história decidir.

A impressão que tenho em suas partidas contra o Messi é que, além de ser decisivo para o seu clube ou seleção, você precisa provar ao mundo que joga mais do que ele. Esqueça isso, entre em campo, jogue sua bola - que não é pouca - e você verá que as coisas acontecerão. Se quiser pensar em Messi para algo, pense em desenvolver a capacidade que ele tem de não cair quando leva pancadas e de não se irritar com provocações. Não entre na onda de bajuladores que querem que você prove agora, imediatamente, que é melhor do que Messi. O mesmo vale para Cristiano Ronaldo. Desculpe a sinceridade, Neymar, mas você também ainda não é melhor nem mais decisivo do que ele. Ou Rooney. Ou Xavi. Você pode superá-los um dia, mas ainda falta muito, muito mesmo.

Fuja dessa conversa de ser apontado como o melhor do mundo atuando no Brasil. Por conta do sistema de eleição, com grande peso de pessoas que acompanham o futebol europeu, isso é quase impossível.

E, olha: você não precisa ir para a Europa em busca desse título. George Weah um dia foi eleito o melhor do mundo. Já ouviu falar dele? Pois é. Iniesta, por outro lado, jamais ganhou essa eleição, mas conquistou uma Copa para o seu país e fez o gol do título. Quem você acha que foi mais importante, o liberiano ou o espanhol?

Se você se preocupar com objetivos mais imediatos em vez de ambições sobre o conjunto geral da carreira, será mais feliz e, consequentemente, jogará melhor.

Como dizem os mais jovens como você: fica a dica.

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