Contas a pagar

O Na Assembleia de junho da CBF, o presidente José Maria Marin apresentou a mais indecente proposta dos últimos tempos, no futebol brasileiro. Cinco anos depois da criação da Timemania, para destinar o dinheiro arrecadado para quitação das dívidas fiscais dos clubes de futebol, Marin levou ao Ministério do Esporte a ideia de anistiar todos débitos.

Paulo Vinícius Coelho, O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2012 | 03h04

A lista de devedores tem o Botafogo como líder, com R$ 318 milhões para o governo - o total das dívidas é de R$ 566 milhões, seis vezes mais do que sua receita. Mesmo assim, a direção do clube carioca decidiu gastar R$ 700 mil nos salários do holandês Seedorf, com o discurso de "a torcida vai pagar''.

Exemplos ruins como o do Botafogo e o do presidente da CBF fazem muita gente projetar essa situação para todos os clubes do País. Não é bem assim. Na quarta-feira, o presidente do Santos, Luis Álvaro, observou como se misturam argumentos ao falar dos clubes pagadores e dos caloteiros: "Gastamos menos do que arrecadamos e quitamos todos os débitos fiscais desde a Timemania''.

Supostamente, isso permite manter Neymar, situação semelhante à do São Paulo, ao se recusar a vender Lucas. O hábito de vender a qualquer proposta lateja no futebol brasileiro desde a saída de Zico, em 1983. Faz a maioria julgar a recusa ao negócio com Lucas, como Neymar no ano passado, duas loucuras. Podem ser. Mas cada caso deve ser avaliado separadamente. Faça as contas para saber a relação dívida-receita do São Paulo e compare com o Manchester United, possível comprador.

O São Paulo arrecada anualmente R$ 226 milhões, deve R$ 154 milhões - perto de R$ 60 milhões em dívida fiscal.

O Manchester arrecada 350 milhões anuais, deve 338 milhões desde a venda ao americano Malcolm Glazer, sobre quem recai a acusação de ter transferido seus débitos pessoais, para comprar o Manchester, para as contas do clube.

Por que, então, o Manchester poderia pagar 38 milhões para comprar Lucas? E por que o São Paulo não pode recusá-los, se sua relação dívida-receita é mais saudável?

Corinthians e Paulinho festejaram, quarta-feira, o fato de terem recusado oferta da Inter de Milão. No mesmo dia, um editorial da Gazzetta dello Sport, na Itália, lembrava da venda de Kaká pelo Milan, em 2009, e da chance de recomprá-lo hoje. "O Milan vendeu para acertar seus cofres. Não acertou e hoje pensa em comprar um jogador sem a capacidade de decidir partidas de três anos atrás'', dizia.

Essa conta, o Brasil nunca mais fez, desde a venda de Zico, em 1983. Se há proposta, vende. Com contas em dia, sem dar calote nos impostos, é possível fazer diferente.

Brasil olímpico. É uma vergonha, mas se você nunca parou para pensar nisso, pense. Estes são os 28.º Jogos Olímpicos e já houve 19 Copas do Mundo. O Brasil competiu em todas as 19 edições de Copas e em apenas 17 olimpíadas - em qualquer esporte.

Brasil Olímpico?

Mudar esse cenário não se faz com mais medalhas, mas com mais esporte nas escolas. Se ganhasse a medalha de ouro no futebol, em 2008, o Brasil ficaria só uma posição abaixo da Espanha. No futebol! E nada mudaria no esporte do País.

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