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Conto de fadas vira realidade para brasileiro da MLB

Apresentado ao beisebol pelo patrão da mãe leva título nos EUA

Entrevista com

Paulo Orlando

Marcius Azevedo e Rafael Pezzo, O Estado de S.Paulo

14 de novembro de 2015 | 17h00

Paulo Orlando caminha para desafiar o arremessador. No sistema de som do Kauffman Stadium, casa do Kansa City Royals, uma música, em português, começa: “Eu amo esse lugar... Eu vim pra ficar... Daqui eu sou... Daqui eu sou...” O brasileiro escolheu o refrão da canção de MC Guimê, “Eu vim para ficar”, para comprovar que não está prestes a acordar de um sonho. O título da World Series, final da Major League Beseball (liga profissional norte-americana de beisebol), conquistado no início de novembro, é a recompensa a todo o esforço feito por este paulistano de Santo Amaro.

Com o desejo de se tornar esportista, mas sem nem imaginar um dia estar na MLB, Paulo foi apresentado ao beisebol aos 11 anos. O responsável: o médico Hideo Ueno, patrão de sua mãe, Tânia, faxineiro na clínica dele. “De descendência japonesa, ele era um treinador e fã. Gostava de jogar beisebol, levava a família e sempre me chamava, quando eu tinha seis, sete anos. Mas eu não sabia direito o que era o esporte. Até que um dia me convenceu, fui em um final de semana e foi a modalidade que mais tive curiosidade de saber como funcionava”, revelou Paulo, que foi praticamente adotado pelas famílias dos integrantes do time por não ter condições de arcar com os custos do esporte. “Tinha auxílio de outras pessoas da colônia japonesa, que me ajudavam nas viagens e na compra de material. Foi um esporte que mudou minha vida.”

Sua mãe não acompanhava muito bem o desempenho do filho no esporte que ele praticava com o patrão. “Ela só dizia que eu tinha de ir porque estaria em boas mãos”, contou. Conforme subia nas categorias, o interesse de Paulo aumentou. “Às vezes ia à casa dos amigos de time e ficava vendo jogos universitários do Japão.”

Após alguns anos foi obrigado a diminuir a prática do esporte por falta de colegas. “Começaram a ir para vestibular, faculdade, então o time acabou. Mas nunca deixei de jogar. Participava de torneios com times adultos. Aí, na escola conheci outros esportes, como handebol e atletismo, e nesse último eu tive resultados expressivos.”

Campeão paulista e brasileiro juvenil nos 400m, Paulo chegou à final do Mundial Júnior em Grosseto, na Itália, em 2004, e terminou em oitavo lugar. Nesse período, o esporte do senhor Ueno reapareceu. “Conheci o cubano Orlando Santana, olheiro do Chicago White Sox. A partir de então, eu fazia atletismo todos os dias e beisebol duas vezes na semana.”

Atleta do Esporte Clube Pinheiros, Paulo se viu diante de uma grande dúvida, já que Santana conseguiu um teste para ele. “Fiquei três semanas na República Dominicana e passei, muito pela velocidade que tinha do atletismo. Joguei uma temporada lá e depois fui para os Estados Unidos.”

À época, Paulo já vivia com sua tia Zilda, cinco anos após a separação de seus pais. “Meu pai (Francisco) foi trabalhar no interior e minha mãe ficou comigo até conhecer outro rapaz e se mudar. Ela tinha dito que voltaria, mas isso não aconteceu. Meu pai mandava apenas dinheiro.”

As categorias de base dos 30 times da MLB são espalhadas por afiliados nas chamadas ligas menores, a Minor League Baseball. Nela, os níveis vão de Novato até AAA. Nesse sistema, Paulo ficou dez anos e atuou em 1.058 partidas. Mesmo sem chances nas equipes de cima, não pensava mais em desistir. “Em 2008 fui trocado para os Royals, que estavam em reconstrução e davam mais chance aos jovens. Aí vi que não daria mais tempo de voltar para o atletismo. Tinha de aprender o máximo do beisebol.”

Kansas City foi último colocado de sua divisão de 2004 a 2010, mas em 2013 a base começou a fazer efeito e o time conseguiu sua primeira temporada com mais vitórias do que derrotas em dez anos.

Um ano antes, Paulo matara a saudade e finalmente reencontrara a mãe. “Uma tia minha a encontrou na Praia Grande. Quando voltei para o Brasil consegui revê-la”, contou. O principal apoio de Paulo foi a esposa, Fabrícia, que conhecia desde o atletismo. Com visto de turista, ela fica com ele por curtos períodos e mora em São Paulo, com a filha do casal – Maria Eduarda, de seis anos. “Penso em levá-las comigo, mas tenho de me consolidar no Kansas”, disse Paulo, que ainda não tem o green card.

Começo meteórico. A primeira chance real na MLB foi na pré-temporada de 2015, e, a decisão do técnico Ned Yost em levar mais um jogador de sua posição para prevenir lesões o privilegiou. Em abril ele se tornou o terceiro brasileiro na liga. O começo foi meteórico. Veloz, Paulo se tornou recordista em rebatidas triplas na história da MLB para um novato, com cinco nos sete primeiros jogos. Porém, foi mandado duas vezes para o time de baixo, o que Yost viu como injusto, mas retornou para ser campeão.

Paulo e Kansas City possuem coincidências que poderiam ser vistas como previsões do sucesso. Os Royals não eram campeões desde 1985, ano de nascimento de Orlando. O fim da seca, contra os Mets, em Nova York, foi no dia 1º de novembro, no aniversário de 30 anos do brasileiro. Depois de tudo o que passou, Paulo repete ser “um orgulho representar o País na maior liga de beisebol do mundo”.

Pelo esporte, Paulo pôde conhecer a presidente Dilma Rousseff, com quem almoçou em Washington este ano, e terá oportunidade de voltar à capital norte-americana no ano que vem para ser recepcionado pelo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, na tradicional visita dos campeões à Casa Branca. “Estou bastante ansioso”, revelou.

Paulo também está ansioso para receber o anel de campeão e definir o seu futuro. Com salário de US$ 507.500 (R$ 1.926.902,98) por ano, aguarda uma proposta de renovação dos Royals e, com a saída de Alex Rios, titular na sua posição, a oferta deve vir com um reconhecimento financeiro e por um período mais longo.

Antes disso, porém, Paulo viajará para Barquisimeto, onde defenderá o Cardenales de Lara na Liga Venezuelana e na Liga do Caribe. A participação ajuda no orçamento mensal e mantém o próximo do esporte que conheceu ainda criança e mudou a sua vida.

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