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Contra a crise

Num País em que campeonatos duram três meses, lutar para manter uma relação de três anos é realmente uma atitude estranha para os padrões do futebol brasileiro. Tite e Corinthians têm remado contra a crise.

Paulo Calçade, O Estado de S.Paulo

21 de outubro de 2013 | 03h02

É óbvio que se trata de uma relação sustentada por números extremamente positivos e pelas maiores conquistas da história corintiana. Mas Tite não é um sujeito qualquer. E isso explica o esforço de mantê-lo no clube.

Depois de um certo tempo, quem está mergulhado no futebol costuma dizer que é normal torcer pelas pessoas, independentemente das camisas que elas estejam representando. Pois bem, Tite é um desses caras.

O caráter é o mais importante. Por mais que os altos salários pagos a alguns desses profissionais contaminem as análises, o que está em julgamento é a postura, são as relações do dia a dia.

Em meio ao furacão, vazam do Corinthians informações que dão conta sobre a instabilidade do treinador num momento tão delicado, o que o impediria de corrigir os defeitos da equipe.

O problema é que o futebol não é assim tão simples. Tite não está sozinho na engrenagem do rendimento. Ele comanda, escala, troca, mas não passa e não chuta. A crise técnica é generalizada. É preciso que cada um assuma a sua parte.

Mesmo na contramão, depois de queimar Ney Franco e Paulo Autuori, o São Paulo recorreu a alguém com uma relação mais profunda com a instituição. Ontem, com apenas nove em campo, o time suportou a pressão do Bahia e conquistou mais uma vitória no Brasileiro.

Com 13 pontos ganhos dos últimos 15 disputados, apesar do sofrimento e da instabilidade, Muricy conseguiu melhorar o time, agora mais competitivo, procurando se transformar novamente no sujeito do jogo. Condiz com a estrutura do clube, com seu treinador e com o grupo atual, que mesmo não sendo excelente, não deveria sofrer tanto.

Está claro que muitos dos problemas do Campeonato Brasileiro são produzidos nos gabinetes. O futebol é esporte, é negócio, é também meio de vida. A novidade é que agora a turma do campo resolveu materializar o seu descontentamento.

Quando é que a gente poderia imaginar que a imagem mais forte do fim de semana seria o abraçaço dos jogadores no centro de campo, antes de cada partida do Campeonato Brasileiro?

Isso mesmo, adversários que no minuto seguinte lutariam com toda a garra por suas camisas, abraçados. O gesto mostra uma esperança, uma certa a mobilização.

Desde a chegada do dr. Sócrates ao Corinthians, no final da década de 1970, o profissional de futebol no Brasil não demonstrava de forma tão clara o seu descontentamento com os rumos do esporte por aqui.

Algumas associações sindicais se sentiram desprestigiadas pelo movimento dos jogadores. Preferiram lamentar o que se poderia definir como quebra de hierarquia nas negociações. Mas é fato que só agora, com os jogadores nesse campo de batalha, as mudanças começaram a acontecer.

Nas questões relativas ao calendário, que gerou a reação dos boleiros, a Confederação Brasileira de Futebol apita muito pouco. A entidade que deveria apontar o rumo do futebol no País funciona apenas como um cartório ao validar as decisões da televisão. O encaixe dos campeonatos na temporada passam pelos executivos da Globo.

É preciso ouvir as reivindicações, mesmo que o motivo do movimento Bom Senso Futebol Clube seja contestar a inércia dos cartolas e o interesse de seus parceiros. Sem o jogador não haveria o clube, não existiriam as federações e muito menos a CBF.

A turma do Vexame Futebol Clube precisa entender isso. O futebol é uma indústria importante, possui um potencial imenso por aqui para oferecer mais empregos e gerar mais recursos para todos, até para abastecer o caixa do governo. O que não se pode fazer é aceitar imposições de quem se julga dono do esporte. A boa notícia é que os jogadores perceberam isso.

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