Contra craques não há esquemas

Testemunhamos na última semana dois episódios que mostram que no futebol há um espaço para individualidades e imprevistos que não cabem nos esquemas previsíveis e nas explicações habituais. O primeiro foi o de Messi no amistoso da Argentina contra o Brasil, na quarta passada: quando os brasileiros se preparavam para escutar o apito final e os locutores soltavam elogios desmedidos para Ronaldinho e para o empate por 0 a 0, Douglas perdeu a bola no meio, Messi recuou, tabelou, avançou em diagonal, saiu de falta e bateu rasteiro no contrapé, marcando um golaço com sua marca. Escrevi no blog que o grande problema não foi a distração ou ingenuidade dos brasileiros: foi a ausência de um fora de série, como o próprio Ronaldinho no Barcelona de cinco anos atrás.

Daniel Piza, O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2010 | 00h00

Em última análise, aquilo que o técnico Mano Menezes chamou de "acidente" esconde um drama bem maior, o mesmo que se viu na Copa: o Brasil está carente de um fora de série, de alguém que decida na maioria das grandes ocasiões, que reinvente os caminhos do campo mesmo quando repete a jogada de sempre. O time de Mano tem talento e juventude, mas tem também inexperiência e alguns jogadores, como Robinho, que jogam bem abaixo do que acreditam - do que o próprio jogador acredita e do que muitos comentaristas acreditaram, quando o compararam oito anos atrás com Pelé, que chutava forte e era objetivo como Robinho raras vezes soube ser. Messi e Cristiano Ronaldo, que no momento disputam liderança e artilharia no Espanhol com belos gols e ótimas equipes, estão bem acima dos melhores jogadores brasileiros.

O outro episódio foi a distensão que tirou Ronaldo no primeiro tempo do jogo entre Vitória e Corinthians, o qual o time paulista já vinha vencendo graças a um lance seu com Danilo. Não é verdade que o Corinthians seja tão dependente assim de Ronaldo, que afinal não jogou nem um terço da temporada. Bruno César, artilheiro da equipe neste ano, não estava e Dentinho também não, pois Iarley não sabe jogar no meio dos zagueiros e deveria tomar aulas de domínio de bola (assim como Danilo aprender a chutar com a direita). E Ronaldo deve ter sua parcela de culpa, por não conseguir fazer oito partidas seguidas desde 2005 e desfalcar de novo o time. Aliás, a seleção também jogou contra a Argentina sem um 9 e se deu mal. Os centroavantes não estavam obsoletos?

Se não fazia tanta falta no primeiro turno, Ronaldo se tornou fundamental na reta final com seus gols, passes e presenças. Muitos o chamaram de ex-jogador em atividade, outros disseram que estava como Romário aos 40 anos; mas o fato é que ele seria titular e destaque em qualquer time brasileiro e nunca ficou apenas na área concluindo as jogadas. À medida que os jogos decisivos foram chegando, sua importância foi aumentando. Quando saiu de campo, o time perdeu a calma, ficou nervoso e desorganizado, desperdiçou as poucas chances que criou e só não levou a virada porque mais uma vez o goleiro Júlio César foi muito bem. Diante de um adversário desesperado por pontos e da saída do craque, teve um baque psicológico e tático, mesmo com tantos experientes.

O presidente Andrés Sanchez mostrou lucidez inusual em cartolas - e nele mesmo em outras ocasiões - e não culpou juiz, regulamento ou adversário que teria "entregado" o jogo, embora meu gosto por futebol não tenha nada a ver com o desse tipo de torcedor que quer que o time perca de propósito. Culpou a perda de pontos fáceis num momento em que o Fluminense jogava melhor e assumia a liderança, com o bom elenco e o técnico vitorioso que tem. Mas o clube também teve culpa por não ter arranjado em dois anos um centroavante para substituir Ronaldo com alguma eficiência. Pernas-de-pau fazem faltas; craques fazem falta.

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