Contra o que está aí

Vivemos tempos bicudos, de reclamações generalizadas. Há melindres de todos os gêneros; até bom-dia é motivo pra discussão entre amigos e parentes. Pois resolvi entrar no clima e também tenho protestos a fazer. Coloco o bloco na rua contra tudo o que está aí.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

20 Março 2015 | 02h04

Desde a semana passada me seguro pra não explodir - confira se não tenho razão. A indignação germina faz tempo e só cresce. Vejo um monte de descalabros, de desaforos. Daí, vêm shows de bola com Real 3 x Schalke 4, Chelsea 2 x PSG 2, Bayern 7 x Shakhtar 0, Barcelona 1 x City 0. Tudo na Europa, óbvio, diante de plateias estarrecidas em estádios abarrotados. Estou com dor de cotovelo, admito e não me envergonho.

Em seguida a esses recitais se contrapõem o sufoco do Internacional pra empatar com o Emelec, a agonia do São Paulo para fazer 1 a 0 mirrado no San Lorenzo no Morumbi e o suor do Galo para ganhar a primeira na Libertadores. Com apresentações insípidas, irritantes. Sem contar as caneladas que a todo momento vejo em diversos Estaduais. Basta ligar a tevê e conferir.

A bola e nós sofremos por aqui. Não dá mais. Chega! É injusto!

Abaixo a mediocridade que corrompe nosso futebol. A começar por aquela de cartolas que há décadas fazem conchavos, armações políticas para se perpetuarem no poder. Que pararam na Idade Média da bola e vendem a alma por 30 dinheiros. Talvez tenham um freio com a Lei da Responsabilidade Fiscal que desponta no horizonte. Não sei, não estou bem certo disso.

Lutemos sobretudo pelo fim da corrupção na forma de se jogar futebol por aqui. Não aos professores retranqueiros, desprezo ao 0 a 0. Pelo fim dos três volantes, pelo banimento do "pega, pega, pega". Nunca mais matar a jogada a qualquer custo. Veto total à ligação direta entre defesa e ataque.

Processo sumário para quem disser que "vale meio a zero, com gol roubado aos 45 do segundo tempo". Trata-se de atentado à inteligência, à alegria, à arte. Em contrapartida, liberdade incondicional para o drible, de preferência abusado; para o chute de trivela, para o passe de calcanhar, de letra. Incentivo à firula e banimento para juiz que permitir violência em campo. Desterro para os botinudos; descer a lenha no rival valerá execração pública.

Ao ostracismo eterno técnico de categorias de base que inibir os garotos de brincarem com a bola, que exigirem "leitura tática" para crianças de 10 anos e que se satisfizerem em transformá-las em robôs e não em seres criativos. Cassação de empresários, investidores, dirigentes que negociam nossos astros. Adeus porcentagens! Ao inferno o superfaturamento de estádios. Ingressos a preços justos e populares.

É preciso ir à luta contra a sangria dos talentos, que saem cada vez mais cedo. Estou farto de ver candidatos a ídolos brasileiros divertirem o fãs na Europa, na Arábia e agora na China e nos EUA. Contra a fuga de pés habilidosos. Devolvam nosso futebol enviado ao estrangeiro. Tragam Neymar de volta com juros e correção. Ou, ao menos, com David Luiz, Thiago Silva, Oscar, Bernard, Willian, Marquinhos, Ricardo Goulart, Diego Tardelli, Everton Ribeiro. Eles são nossos, nos foram surrupiados.

Nossas crianças não podem ser expostas a influências estrangeiras de maneira tão ostensiva. Inconcebível imaginar a Avenida Paulista invadida, em futuro pouco distante, pela garotada a festejar título de Real Madrid, Barça, Milan, Bayern ou Manchester United! A onda humana deve ser com as camisas do Corinthians, do Palmeiras, do São Paulo, do Santos. Times da terra.

É imprescindível recuperar a autoestima do brasileiro e acabar com extremos, do conformista ao ufanista de araque. Chega de vulgaridade. Impeachment já pra quem quer transformar a seleção numa Venezuela, numa Cuba do futebol. Não vamos permitir. Quero o Maracanã como casa da seleção, não o Emirates Stadium. Conclamo a chuteiraço pelo nosso futebol. Fora, CBF!

7 a 1 nunca mais!

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