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Ugo Giorgetti
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Contraste

Queria muito ver o time do Santos, bicampeão da Copa São Paulo de Juniores, jogar contra o Linense. Os jogos entre garotos são ótimos de se ver. Como são jovens, acabam esquecendo as ordens e jogam mais livres. Há dribles e fintas. O jogo se torna mais alegre. E assim começou a partida, com o time do interior, para a minha surpresa, jogando de igual para igual.

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

11 de janeiro de 2015 | 02h02

Acontece que o canal de TV imediatamente ao lado, transmitia outra coisa muito diferente: a caçada aos autores do massacre de Paris. Havia, como sempre, convidados no estúdio falando de coisas das quais pouco sabem. O contraste era tremendo, entre o jogo ensolarado de Lins e o triste inverno, cinza e chuvoso, da França. Mas eu, embora curtindo bastante o futebol da garotada, não podia deixar de mudar de canal, fascinado pela morte e pelo horror. Não acontecia muitas coisas, aguardava-se o único desfecho que todos podiam imaginar: imagens da policia cercando os criminosos. Na falta de que alguma dramática novidade acontecesse, continuavam os comentários dos especialistas no estúdio.

Eu realmente não sei quem, e sob quais referências, recruta as pessoas para comentar fatos importantes na televisão. Estou sempre à espera de que alguém diga: "desculpem ter vindo até aqui, mas não tenho como esclarecer o que está acontecendo, além das imagens que todos veem. São questões muito profundas, e muito difíceis de explicar. Por isso não vou dizer nada e voltar para minha casa, aguardando o que vai se passar. Prefiro isso a dizer obviedades e simplificações irritantes". Mas ninguém diz isso. Continuam especulando com o nada.

Com isso perdi o gol do Linense. O jogo era muito agradável, o timo do interior é muito bem armado, com garotos de categoria. O Santos também, é claro. Me chamou muito a atenção um garoto do Linense que me lembrou Edilson em começo de carreira. Gabrielzinho partia para cima dos zagueiros do Santos com o mesmo ímpeto, velocidade e capacidade individual do antigo jogador do Palmeiras, Corinthians e Seleção. Aliás, havia Gabriel em campo a dar com pau. Parece que o nome entrou em moda no futebol e, vira e mexe surge nessa Copa Gabriel Jesus, João Gabriel e várias outras espécies de Gabriel.

Mas, malgrado eu mesmo, mudo de canal. E lá estão as mesmas pessoas e as mesmas imagens com uma informação adicional. Os criminosos foram mortos e também há reféns mortos. Um helicóptero sobrevoa, num céu pavoroso, casas fechadas e ruas desertas. O presidente da França fala à nação. Volto para a vida. O Santos parte para o ataque, mas não consegue empatar. A molecada do Linense espera para dar um bote. E ele chega. Bola perdia na defesa do Santos e pênalti, cobrado com categoria: Linense 2 a 0. Vibração e alegria da torcida. Parece que estamos em dois planetas distintos.

No outro canal, o da morte, imagens da polícia invadindo uma mercearia, o brilho de uma detonação sem som, pessoas escapando desesperadas pela porta e correndo pela ruas. Letreiros sobre impressos nas imagens me dão conta de que os criminosos foram todos mortos e com eles alguns reféns. Compreendo que estou vendo imagens repetidas, de algum tempo antes. Comentários não param, nem declarações de brasileiros assustados pelas ruas de Paris. É preciso preencher o tempo e hipnotizar o espectador.

Num supremo esforço saio dali. O Santos acaba por fazer um gol e o jogo fica sensacional. Os últimos minutos são de arrepiar com o Santos, ameaçado de eliminação, indo todo no ataque, e o Linense esperando para dar seus botes mortais. Podia acontecer qualquer coisa, como uma bola espetacular na trave do Linense. O belo jogo termina. Mudo para o canal do horror e lá sou surpreendido por outra imagem. Vejo crianças rindo, comendo pipoca com belos dentes, e adultos se abraçando felizes, tudo com fundo musical de um suave coral. Não era Paris, era um comercial.

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