Sérgio Pompeu/AE
Sérgio Pompeu/AE

Controle remoto dita o ritmo da torcida no catar

País surpreendeu mundo ao ganhar disputa pela Copa do Mundo de 2022, mas estádios vivem vazios

Sergio Pompeu, ENVIADO ESPECIAL A DOHA, O Estado de S.Paulo

09 de janeiro de 2011 | 00h00

Como diriam locutores das antigas, a noite é agradável e o jogo, disputado. São 35 minutos do segundo tempo e o Al Rayyan, treinado pelo brasileiro Paulo Autuori, pressiona o Al-Gharafa, do também brasileiro Caio Junior, que vence por 1 a 0. Mas falta alguma coisa no confortável estádio de 25 mil lugares do clube Al Arabbi, em Doha, capital do Catar: gente. Apesar de o ingresso ser gratuito, só uns 50 animados torcedores presenciam a virada do Al Rayyan, graças a dois gols marcados em menos de cinco minutos.

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Cinquenta gatos pingados num clássico local, com entrada de graça, no país que, para espanto do Planeta Futebol, acaba de ser escolhido sede da Copa do Mundo de 2022? "Normal", diz Mohammed Deham, de 48 anos, vestido de túnica e lenço na cabeça, ambos impecavelmente brancos. "A transmissão da TV aqui é muito boa. As pessoas em casa veem muito mais detalhes do que veriam no estádio."

Naquela noite de 14 de dezembro, Mohammed ficou no meio-termo. Foi ao estádio, mas preferiu ficar com amigos no saguão, conversando diante da TV, a subir um lance de escada e assistir ao jogo na ala vip, com seu piso de mármore. Ele garante que os catarianos são, sim, fanáticos por futebol e o baixo público não espelha isso. "And this tournament is "sacanagem"", completa, rindo.

Surpreendidos novamente, ficamos sabendo que Mohammed foi lateral-direito da seleção do país e conhece bem o Brasil. Ele recita o nome de lugares onde treinou ("Vassouras, Teresópolis") antes de explicar a tal "sacanagem". "O torneio não vale nada e a maioria dos titulares dos times está treinando para a Copa da Ásia (iniciada anteontem em Doha, com a derrota do Qatar para o Usbequistão, por 2 a 0)."

O argumento faz sentido, mas a média de público é irrisória também na Liga, principal competição do país. Gira em torno de mil pessoas, apesar dos ingressos gratuitos e dos grupos de torcedores pagos pela Federação de Futebol do Catar para fazer as vezes de torcida organizada. Mohammed tem razão, porém, quando fala da TV. Bancada pelo governo catariano, a Al Jazira tem uma dezena de canais de esportes, entre eles dois abertos, que transmitem todos os jogos de times locais. "Contratamos cameramen portugueses que trabalhavam na TV Globo para garantir a qualidade das transmissões", diz Sadek Aldin, jordaniano que morou 18 anos no Brasil e cuida dos contatos com a mídia na federação.

O Catar é um lugar singular sob vários aspectos e o futebol não foge à regra. A vitória, em 2 de dezembro, da candidatura para sede do Mundial teve o efeito de um abalo sísmico dentro e fora de suas fronteiras. Foi o estopim da maior festa popular da história do país do Golfo Pérsico - o Catar tem 11,4 mil quilômetros quadrados de área (meio Sergipe) e 1,6 milhão de habitantes (menos do que Curitiba), dos quais só cerca de 370 mil (uma Jundiaí) são catarianos.

Deu a partida para um plano de investimento de US$ 43 bilhões em infraestrutura e a projetos de construção de 12 estádios - dinheiro não é problema no "meio Sergipe", dono de reservas de 15 bilhões de barris de petróleo e 26 trilhões de metros cúbicos de gás, que tem hoje uma das rendas per capita mais altas do mundo, de cerca de US$ 90 mil. Movimentou o noticiário com uma sucessão de polêmicas: como fazer um Mundial num país onde a temperatura em junho pode superar os 50 graus, que proíbe a venda de álcool e veta a entrada de israelenses no seu território?

As duas últimas questões já foram respondidas pelas autoridades: a venda de bebidas será liberada em locais determinados e a restrição de acesso de cidadãos de Israel cairá durante a Copa. Quanto ao calor, o presidente da Fifa, Joseph Blatter, admitiu anteontem no Catar a possibilidade de, pela primeira vez, realizar o Mundial em janeiro, para fugir do verão catariano. A hipótese, já levantada antes pelo alemão Beckenbauer, pode seduzir dirigentes europeus, que veriam suas seleções chegarem na ponta dos cascos ao Mundial, e não estropiadas, em fim de temporada. Pode, porém, esbarrar nos interesses dos poderosos clubes do Velho Continente, para azar dos torcedores, que, se a Copa ocorrer em julho, terão de ficar confinados em hotéis, reféns do ar condicionado.

Os jogadores, estes devem passar bem, obrigado. O Catar promete fazer a primeira Copa regulada por termostato da história, com estádios climatizados. No teste feito em 28 de outubro para a Fifa, durante uma partida no estádio do Al Saadi, em Doha, a temperatura ambiente era de 19 graus, ante 44 graus do lado de fora. "Passei frio no campo, parecia a Europa", conta o atacante Marcinho, do Qatar Sports Club, que atuou na partida. "Inshallah (se Alá permitir) vamos fazer uma Copa inesquecível", torce o sorridente Mohammed.

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