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Antero Greco
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Conversa fiada

Choques de geração sempre haverá, em qualquer atividade. Mais velhos tenderão a dizer que fatos e personagens extraordinários surgiram no tempo deles. Os jovens rebaterão com argumento de que a vida atual é mais rica e complexa. Ambos estão certos e errados. 

Antero Greco, O Estado de S. Paulo

08 de maio de 2015 | 03h00

No esporte, semana sim, outra também, aparece alguém a defender um atleta incomum, único, inigualável, superior aos contemporâneos e sobretudo aos antigos. No ato vem a contrapartida, com arrazoados a demonstrar que o astro de ontem era o melhor e que não nasceu quem o supere. As discussões soam inúteis e infantis. Não raro revelam intolerância e desinformação gerais. 

Na tarde de anteontem, despontou esse eterno conflito. Lionel Messi fez dois gols lindos na vitória do Barcelona por 3 a 0 sobre o Bayern de Munique pela Copa dos Campeões. O jogo encaminhava-se para 0 a 0 morno, até que o excepcional argentino botou fogo, com a qualidade de cair o queixo. O segundo gol, então, foi uma obra-prima, a ponto de derrubar o zagueiro Boateng e descadeirá-lo pelo drible que tomou. Até agora o moço está à procura da bola.

No meio da empolgação, um narrador lembrou que a jogada parecia com aquela de Maradona, no jogo em que a Argentina bateu a Inglaterra por 2 a 1 na Copa de 1986. E, claro, veio a pergunta: seria Messi maior do que Dieguito? O comentarista, de quem há muito sou admirador, concordou com a beleza e semelhança, mas colocou um porém: “Maradona fez aquilo num Mundial. Messi, não. Quero ver numa Copa.”

Dessa maneira, expressou a opinião de que o argentino que encantou plateias nos anos 80 e parte dos 90 teve trajetória superior à do patrício que delicia o público neste milênio. Com o adendo, em favor do mais velho, de que conquistou o título daquele 1986.

Na hora pipocaram reações nas redes sociais, esse termômetro temível e supervalorizado dos dias de hoje. Houve os que concordaram, assim como foram inúmeros os que disseram que Messi é “o maior de todos os tempos”. Uma das observações para sustentar esse exagero era a de que “no tempo do Maradona o futebol era mais fácil”.

Bobagens, aceitáveis para torcedores empolgados, mas fora de propósito para a imprensa (um colega postou que Messi era muito melhor do que Pelé e ponto final). Equívoco tremendo juntar épocas diferentes, colocá-las lado a lado e tirar conclusões como se fossem todas iguais. Daí, se pegam números para basear a análise. Para ficar apenas no futebol, o raciocínio simplista diz que os times tinham e têm 11 de cada lado, que há um árbitro central, um campo, as traves, as chuteiras. O jogo em essência não mudou. 

Boleiros enfrentam facilidades e dificuldades compatíveis com a era que vivem. Antes, o material esportivo era mais tosco; hoje, a tecnologia colabora muito. Corria-se menos do que agora; o cuidado com a preparação física atualmente é enorme. Esquemas táticos são rígidos, e assim por diante.

Pois bem: o material ajuda e prejudica a todos, assim como a velocidade do jogo, o condicionamento físico e os esquemas táticos. Chega-se a qual conclusão? A de que os fora de série foram, são e serão aqueles que, em seu tempo, se mostram muito acima dos demais, estão à frente, rompem barreiras, criam parâmetros. Descontados empolgação, emoção, marketing, restará a História. E ela apontará a grandeza dos respectivos feitos, com a ressalva de que foram sujeitos diferenciados. Por isso, não há por que tanta ânsia em apontar Pelé, Garrincha, Maradona, Zidane, Messi como “o maior”. Cada um tem lugar reservado no topo. Gênios são eternos.

Hora de acordar. O Corinthians dormiu com os elogios merecidos que recebeu na largada da temporada e baixou a guarda. Alguns tropeços se justificaram por situação cômoda em que se encontrava. A derrota para o Guarani paraguaio preocupa, pois a turma de Tite não jogou nada. Ou acorda ou a Libertadores vira fumaça na semana que vem. 

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