Lucas Figueiredo/CBF
Lucas Figueiredo/CBF

Coordenada, punição a Del Nero na Fifa permitiu 'transição' no comando da CBF

Com a demora, Rogério Caboclo foi escolhido pelo ex-presidente e venceu eleições na entidade

Jamil Chade, correspondente / Genebra, Estadão Conteúdo

27 Abril 2018 | 13h54

Banido do futebol pela Fifa, Marco Polo Del Nero foi punido nesta sexta-feira após coordenar sua sucessão no comando da CBF. A decisão foi tomada pela entidade máxima do futebol mundial apenas depois que o ex-dirigente teve tempo para manobrar o processo eleitoral no Brasil e escolher Rogério Caboclo como seu sucessor. Na prática, portanto, a punição tem pouco impacto.

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Já no ano passado, o presidente da Fifa, Gianni Infantino, manteve reuniões com a direção da CBF, na esperança de encontrar uma "solução" para a situação de Del Nero. Mesmo indiciado pela Justiça norte-americana desde 2015, Del Nero chegou a receber Infantino na sede da CBF, no Rio de Janeiro em 2016.

Apesar de indicar que a situação do brasileiro era "insustentável" e querer seu afastamento, a Fifa manteve seu caso em compasso de espera. A entidade, que hoje é questionada duramente pela falta de transparência e independência de seus investigadores, apenas agiu quando, nos EUA, o julgamento nas cortes de Nova York apontou para crimes cometidos pelo brasileiro.

Legalmente, a Fifa não tinha mais escolha, senão a de agir contra Del Nero. Caso contrário, poderia ser vista como protegendo alguém já publicamente denunciado.

Ainda assim, os prazos para uma punição foram estipulados permitindo uma "transição" na CBF. Num primeiro momento, a Fifa o havia afastado do futebol por três meses, enquanto supostamente realizava suas investigações. Em março, porém, ela ampliou o inquérito por mais 45 dias e abriu espaço para uma eleição orquestrada na CBF.

A entidade brasileira, assim, estabeleceu a escolha do novo presidente dentro do prazo dado pela Fifa, evitando um vácuo de poder. O novo presidente, Rogério Caboclo, apenas irá assumir o cargo em abril de 2019, num sinal claro de que a votação fora desenhada para evitar que uma briga política fosse desencadeada.

O Estado revelou no final de 2017 que, mesmo oficialmente suspenso, Del Nero continuava a mandar na CBF, conversar com quem ficou no comando e até mesmo orientando pagamentos. Para manter contato, uma logística especial foi criada. Cartolas evitaram ir ao seu apartamento para não serem vistos, enquanto um esquema sigiloso foi criado para permitir os encontros. Apesar das denúncias neste sentido e das violações da suspensão, a Fifa jamais agiu.

Enquanto a entidade em Zurique fazia vistas grossas, o principal trabalho de Del Nero foi planejar uma transição. Para isso, manobrou para conseguir que Rogério Caboclo, seu aliado, fosse eleito há uma semana, sem oposição e sem qualquer outro candidato na corrida.

O Estado apurou que a decisão de Del Nero de abrir mão da presidência foi aplaudida na Fifa que, em compensação, aceitou dar um período para que a CBF se reorganizasse. A mesma estratégia já havia sido adotada por Ricardo Teixeira, quando deixou a CBF em 2012 e escolheu a dedo seus sucessores, sob os olhares da Fifa.

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