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Copa, primeira parte

Ultrapassar a primeira fase era o mínimo que se esperava em casa. Entre a obrigação e a certeza existe uma distância sutil e perigosa, sempre atormentada pelo imediatismo condutor do futebol brasileiro. A menos de um ano do Mundial, a Itália foi apenas o 10.º adversário de Felipão desde o retorno ao comando do time, na derrota para a Inglaterra por 2 a 1, em fevereiro.

PAULO CALÇADE, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2013 | 02h11

Pouco tempo, pouco jogo, mas muito progresso. A base construída por Mano Menezes jamais poderá ser desconsiderada, apesar de os últimos cinco meses terem deixado bem transparentes as escolhas do novo treinador.

A essa altura do campeonato, é melhor Scolari abraçar as convicções que o conduziram até aqui, tão consistentes quanto o bigode de seu assistente Flávio Murtosa, do que caminhar pela dúvida. Ou pela cabeça dos outros.

Os 4 a 2 aplicados nos italianos encerraram a primeira etapa da preparação da seleção para a Copa do Mundo. A classificação à semifinal, obtida com três vitórias, nove gols marcados e dois sofridos, reflete os avanços de 27 dias de treinamentos e de convivência.

A equipe começa a ganhar forma, fiel à maneira de Felipão enxergar o futebol. Jamais você detectará paixão pela posse de bola e pelo passe, como na Espanha, que tanto encanta Carlos Alberto Parreira. É muito tarde para falar em começo de trabalho e muito cedo para sair por aí cantando vitória.

A fase de grupos fortaleceu a confiança, deu alma ao time. O normal, pelo o que se viu até agora, em que pese o confronto entre vizinhos sul-americanos, é o Maracanã receber Brasil e Espanha na final de domingo. No mata-mata, os riscos são maiores.

Independentemente do que possa acontecer até lá, a Copa das Confederações, pelo menos dentro de campo, tem sido vitoriosa. Comedido nas análises, Felipão mantém os pés bem grudados ao chão quando aponta deficiências e reconhece a expansão da confiança. Desde o amistoso contra a França, são quatro vitórias seguidas em confrontos que só ajudaram a encharcar a seleção de atrevimento.

A pressão inicial sobre a Itália foi espetacular, mas só se chega ao título mundial se alguns desses valores forem perenes, se constituírem o DNA da equipe. Talvez não seja possível manter a intensidade da marcação e atacar como um bando de famintos, mas é possível estabelecer um perfil, uma característica, desde que o meio de campo trabalhe por isso. O equilíbrio tático é mais do que um jogo de palavras. A soma das atuações individuais gera comportamento coletivo. Os primeiros minutos da segunda etapa não foram suficientes para mostrar aos brasileiros o que havia mudado no adversário.

A solidão de Diamanti no sistema 4-4-1-1 de Cesare Prandelli terminou com a transferência de Giaccherini para a zona de atuação dos volantes brasileiros. Com dois jogadores para abastecer Balotelli, a Azzurra teve sucesso num contra-ataque seguido de erro de marcação na área de Hernanes. Já o segundo gol italiano surgiu de um grave erro de posicionamento em cobrança de escanteio. São defeitos que necessitam de tempo para serem eliminados.

Poupado contra a Itália, Paulinho retorna ao meio de campo, setor que ainda merece reparos. Afinal, quem atua por lá? Neymar e Hulk são agudos, estão sempre na direção do gol, são atacantes. Então, quem organiza o jogo?

Dentro de um plano coletivo, a resposta é Oscar, mas a bola ainda tem viajado sem qualidade pelo setor que deveria ter mais importância na constituição da personalidade da equipe. A ligação pelo alto pode até funcionar, mas serve apenas para encobrir os defeitos.

Cada vez mais zagueiro, o volante Luis Gustavo vê Paulinho ser exigido como armador. Cresce a distância entre eles, e na prova dos nove falta a criatividade de Oscar ao meio de campo, que encontrou uma alternativa para fazer a conexão com os atacantes.

A verticalidade do jogo é que dá vida e sentido ao futebol, mas nem sempre o caminho é a linha reta traçada na direção do gol.

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