Coreia do Norte, um time manipulado

Ex-técnico da seleção, 1ª adversária do Brasil, conta detalhes da interferência política e das ameaças do regime

Jamil Chade, O Estadao de S.Paulo

14 de março de 2010 | 00h00

Uma equipe manipulada politicamente e ameaçada por um regime autoritário. Essa é a seleção que o Brasil enfrentará na estreia da Copa do Mundo de 2010, a Coreia do Norte. A denúncia foi feita ao Estado por um ex-treinador da seleção norte-coreana, que hoje vive exilado na Coreia do Sul, Yoon Myong-Chan. Em rara entrevista concedida por e-mail, o técnico que dirigiu a seleção entre 1990 e 1994, diz que não há formas de um jogador pensar em escapar da delegação enquanto estiver na África do Sul, já que todos sabem que suas famílias podem ser usadas como reféns. Ele ainda conta como jogadores da seleção nacional foram enviados a campos de prisioneiros políticos e trabalho forçado depois que retornaram da Copa do Mundo da Inglaterra, em 1966.

Esta será a segunda vez que a Coreia do Norte, um dos países mais isolados do mundo, participa de uma Copa do Mundo. Politicamente, o governo de Pyongyang sofre uma pressão intensa para renunciar às armas nucleares. O regime autoritário, estabelecido nos anos 1950 como resultado da divisão da península, insiste em manter seus objetivos militares, ainda que a fome seja um dos problemas mais sérios do país. Hoje, o Brasil é uma das poucas nações democráticas a abrir uma embaixada em Pyongyang e, nas votações na ONU (Organização das Nações Unidas), tem poupado condenações à Coreia do Norte em relação às acusações de violações de direitos humanos.

Em sua primeira aparição em uma Copa, a Coreia surpreendeu o mundo ao bater a Itália por 1 a 0, empatar com o Chile e se classificar para as quartas de final. O time esteve perto de uma classificação para a semifinal. No jogo das quartas contra Portugal do craque Eusébio, os norte-coreanos fizeram 3 a 0 em apenas 25 minutos de jogo. Mas os portugueses, que já haviam derrotado o Brasil, viraram de forma incrível o jogo. Eusébio marcou quatro e a partida acabou 5 a 3 para os europeus.

Os jogadores asiáticos retornaram à capital Pyongyang como heróis, principalmente o número 7, Pak Doo-Ik, autor do gol contra a Itália - membro do exército, ele foi promovido a sargento. Mas logo uma investigação começou em relação ao comportamento do time em Londres, sobretudo, diante da inesperada virada de Portugal. De acordo com Yoon Myong-Chan, algumas das estrelas do time foram enviadas para o interior do país e forçadas a trabalhar em florestas e minas de carvão.

No que se refere ao futebol, o ex-técnico, hoje com 60 anos de idade - fugiu em 1999 -, aposta que não existe nenhuma possibilidade de os norte-coreanos vencerem o Brasil na Copa do Mundo da África do Sul.

Para que a entrevista fosse realizada, o Estado foi solicitado a não divulgar o local exato onde vive hoje o ex-técnico. Isso, de acordo com pessoas próximas a ele, seria uma forma de proteger o dissidente, já que há ainda forte temor de que os serviços de inteligência da Coreia do Norte estejam monitorando suas atividades na Coreia do Sul. Yoon Myong-Chan adotou um novo nome em Seul, que também está sendo mantido em sigilo.

Algumas perguntas não foram respondidas também por questão de segurança. O Estado perguntou como o técnico havia escapado da Coreia do Norte e como via o futuro político do país. Ele também não deu uma resposta sobre o motivo de sua fuga. Leia abaixo os principais trechos da entrevista.

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