Corintiana, lutadora brasileira do UFC sonhava em ser a 'Marta' no futebol

Corintiana, lutadora brasileira do UFC sonhava em ser a 'Marta' no futebol

Jéssica 'Bate-Estaca' Andrade volta ao octógono neste sábado, em Manchester

Bruna Toni, O Estado de S. Paulo

25 de outubro de 2013 | 20h21

SÃO PAULO - Jéssica Andrade tem apenas 22 anos e, não fosse o receio da mãe em ver a filha mudar de cidade ainda novinha, poderia ser tema de uma reportagem sobre as mulheres no futebol. Mas quis a vida que ela tomasse gosto por um outro esporte e ganhasse o mundo calçando luvas ao invés de chuteiras.

Primeira brasileira a representar o Brasil no UFC, maior evento de MMA do mundo, Jéssica tem um novo desafio marcado para este sábado, no UFC Fight Night, em Manchester, Inglaterra. A paranaense enfrentará a britânica de origem francesa Rosi Sexton, na categoria peso-galo, no card preliminar do evento que terá como estrelas Lyoto Machida e Mark Muñoz.

Esta será a segunda participação de Jéssica no evento. A primeira foi contra a experiente Liz Carmouche, em julho deste ano. Apesar do revés, a brasileira empolgou a torcida ao quase finalizar a adversária e ganhou pontos com o chefe Dana White. Agora, mesmo sabendo da importância da vitória, garante estar mais tranquila e não se importa em estar pisando em solo "inimigo". "Acho que será mais difícil pra ela do que pra mim", afirma.

Apesar da paixão pelo MMA, 'Bate-Estaca', apelido que ganhou quando ainda lutava jiu-jítsu, era a aposta do treinador da escola para o futebol. "Ele dizia que eu tinha que me profissionalizar, que tinha jeito para a coisa. Falava para minha mãe que um dia ela me veria na TV como a Marta", conta a corintiana. Mesmo focada em sua luta, não poupa críticas ao time do coração: "Vou ensinar o Pato a bater pênalti", brinca.

Em entrevista ao Estado, "Jéssicão", como era chamada na escola, diz que espera lutar pelo cinturão, mas ainda quer uma revanche contra Carmouche. Sobre vencer a quase imbatível Ronda Rousey, ela garante: "Todo mundo tem um ponto fraco. Não tenho medo de enfrentá-la. Este dia vai chegar."

ESTADO - Quando você começou a lutar?

JÉSSICA - Eu jogava futsal, tênis de mesa, handball. Trabalhava a semana toda em um pesque-pague e só tinha a terça-feira livre de folga pra treinar, então passava o dia praticando esportes. Levava muito jeito para o futebol, meu treinador sempre dizia que eu tinha de virar profissional. Um dia um clube me chamou para jogar futsal em São Paulo, mas como eu era muito nova minha mãe não deixou. Aí eu larguei o futebol e tomei gosto pelas lutas. É engraçado, porque hoje o amor pelo MMA é bem maior. Mas eu falava para a minha mãe que um dia eu seria igual a Marta, que ela me veria na TV, e o MMA acabou me dando isso mais rápido.

ESTADO - Como foi com a família?

JÉSSICA - Minha mãe ficou meio bolada, ela não queria que eu lutasse. Eu comecei no projeto de judô da escola. Em 2010, quando comecei a treinar jiu-jítsu, ela até que gostava. No ano seguinte, fiz a minha primeira luta de MMA. Daí ela foi assistir, ficou meio assustada e me perguntou: 'Você tem certeza que quer isso? No jiu-jítsu você não machuca tanto', eu disse que era isso e apostava que daria certo.

ESTADO - Na escola, você tinha fama de ser briguenta?

JÉSSICA - Nunca tive fama de briguenta, mas todo mundo tinha medo de mim, me chamavam de "Jessicão". De vez em quando tinha confusão, mas eu nunca brigava com menina, só com menino. Quando o pessoal começava uma confusão, eu dizia: 'Se quiserem começar a brigar, vão ter de começar por mim', daí todo mundo desistia (risos).

ESTADO - Como foi a sensação de ser a primeira mulher brasileira a lutar no UFC?

JÉSSICA - Foi uma sensação muito boa. Acho que fiquei bem nervosa, era a primeira brasileira a lutar, a tensão veio muito forte em cima de mim, acho que isso atrapalhou, não consegui mostrar tudo, todo o meu potencial. Agora será diferente, estou supertranquila.

ESTADO - Você acha que é possível um evento só de mulheres do tamanho do UFC?

JÉSSICA - Eu acho que sim. Eu estava com o contrato do Invicta nas mãos, que já é um evento só de mulheres, antes do UFC me chamar. Eu acho que como Dana White dizia que nunca teria uma categoria só de mulheres e mudou de ideia, pode acontecer um TUF só feminino, um card só com mulheres.

ESTADO - Como é a relação com os homens durante os dias que antecedem o evento, nas pesagens, coletivas. Existe preconceito?

JÉSSICA - Eu mesma nunca senti, o pessoal respeita muito, os fãs, a gente vê que existe o mesmo carinho com os homens e com as mulheres. Está mudando muito. Antigamente tinha muito isso, falavam 'poxa, como que uma mulher vai lutar'. Agora estamos roubando a cena, as lutas femininas são as mais esperadas quase sempre.

ESTADO - De onde veio o apelido 'Bate-Estaca'?

JÉSSICA - Foi em um evento de jiu-jítsu na minha cidade. Eu estava lutando em uma categoria acima da minha, a adversária era uma paraguaia. Quando eu estava ganhando a luta, ela me pegou no armlock, fiquei nervosa e a derrubei no chão. Fui eliminada porque isso é proibido e me colocaram esse apelido. No começo ficava meio triste, tinha perdido a luta, mas depois me acostumei. Isso foi em julho de 2011.

ESTADO - A luta contra Liz Carmouche foi um sucesso e você quase finalizou. O que acha que deu errado e que não quer repetir agora? Qual será a sua estratégia?

JÉSSICA - O jogo da Rosi é até parecido com o da Liz, mas ela é mais fraca. Quero aproveitar a trocação, manter a lutar em pé, meu muay-thai está muito bom, quero aproveitar isso. O jogo dela está casando bem com o meu, será uma luta bem disputada.

ESTADO - Lutar na casa da adversária é um ponto negativo? Como lidar com a pressão?

JÉSSICA - Acho que é mais difícil pra ela do que pra mim. Porque quando você está em casa, é como se tivesse a obrigação de ganhar. Eu já lutei fora, nos EUA, na Rússia, para mim é mais fácil. Lutar em casa exige mais responsabilidade.

ESTADO - Mas o UFC já disse que pretende fazer uma série de eventos no Brasil no ano que vem. Tem algum lugar onde gostaria de lutar? No Paraná talvez?

JÉSSICA - Se caso acontecer de lutar na minha terra, ficarei muito feliz. Tenho muita vontade de lutar no Brasil.

ESTADO - Qual a sua rotina de treinos? Muda muito perto da luta?

JÉSSICA - A rotina muda bastante quando a luta se aproxima. A gente passa a treinar mais, o foco é diferente, o treino é muito específico, de acordo com a adversária.

ESTADO - E adversária dentro do octógono. Tem alguma preferida?

JÉSSICA - Todo mundo sonha em disputar o cinturão, mas ainda quero ter uma revanche com a Liz Carmouche, mostrar que eu tinha condição de ganhar da primeira vez. Acho que se ganhar, terei a chance de lutar pelo título.

ESTADO - É possível vencer a Ronda Rousey?

JÉSSICA - Eu acho que ninguém é imbatível. Ela também não é, tem seus pontos fracos. É só treinar. Não tenho medo de lutar com ela, se chegar esse momento, eu darei o meu máximo, nem que tenha que fazer o impossível no octógono. Essa hora vai chegar.

ESTADO - Tem alguém que te inspira?

JÉSSICA - Eu sempre fui muito fã da Cris Cyborg. Ela me dá motivação para querer treinar. Temos estilos parecidos, de tomar pancada e não estar nem aí, continuar batendo, somos bem fortes. Me inspiro muito na minha equipe também, não é meu nome que levo, é o nome da equipe (Paraná Vale Tudo). E agora que estou namorando, isso também me ajuda. A Nataly (Sousa) gosta de esportes, também jogava futsal, ela me incentiva muito.

ESTADO - Ela não está em Manchester com você, mas estará torcendo no Rio...

JÉSSICA - Eu não consegui trazer ela comigo dessa vez, mas sei que já fizeram até camiseta com foto, disseram que vão quebrar o bar no Rio de Janeiro (risos).

ESTADO - Qual a aposta para a luta principal da noite?

JÉSSICA - Estou meio em dúvida. A gente sempre torce para o brasileiro, claro, mas acho que essa luta será bem disputada, é difícil dizer.

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