Calla Kessler/The New York Times
Calla Kessler/The New York Times

Ele correu a primeira maratona de Nova York. Neste domingo, correrá a 50ª

Aos 67 anos, Larry Trachtenberg é o único atleta que correu a primeira maratona de Nova York e que também está competindo no evento deste ano, a 50ª corrida da maratona

Talya Minsberg, The New York Times, O Estado de S.Paulo

06 de novembro de 2021 | 05h00

No domingo, 13 de setembro de 1970, um dia antes de seu último ano começar na escola Long Island City High School, Larry Trachtenberg foi um dos 127 atletas que se alinharam no Central Park para correr a primeira maratona da cidade de Nova York. Ele foi um dos 55 que terminaram a corrida.

Neste domingo, 7 de novembro de 2021, Trachtenberg, agora com 67 anos, correrá a maratona novamente, como um dos 33 mil atletas que se alinham na base da ponte Verrazzano-Narrows em Staten Island.

Ele será o único que correu a primeira maratona da cidade de Nova York e que também participará do evento deste ano, a 50ª maratona.

"Eu não passaria por tudo isso por Boston ou Londres ou qualquer outra coisa", Trachtenberg disse pelo telefone de sua casa em Eugene, no Oregon. "É que é Nova York."

Em 1970, Trachtenberg era um talentoso atleta de cross-country que viu um anúncio da corrida nas páginas do The New York Times. Ele deu uma segunda olhada. Estava acostumado a treinar para corridas que ficavam perto de 3 km, não de aproximadamente 42 km. Trachtenberg se perguntou se poderia correr tanto tempo sem parar. Poderia correr tanto tempo sem beber água?

Ele se inscreveu. Por que não? Ele estava sempre buscando novas maneiras de testar sua resistência e ainda tem recortes de jornais de uma competição de condicionamento físico em 1969.

“Em primeiro lugar, eu tive que pensar fora da caixa para correr a maratona, ele disse. “Não tinha mais ninguém em conjuntos habitacionais populares de Nova York correndo maratonas”.

Duas semanas antes da corrida, ele pegou o metrô para o parque Van Cortlandt, no Bronx, com o objetivo de correr o que estimou ser uma meia maratona. Pareceu fácil, ele disse. Ele percebeu que tudo o que precisava fazer era dobrar a distância. No dia anterior à corrida, ele decidiu sondar o percurso e correu cerca de 12 km pelo Central Park.

“Eu acho os registros de treinamento hilários”, ele disse sobre suas anotações de 51 anos das semanas em torno da corrida. Ele fez quase exatamente o que um treinador diria a um maratonista para não fazer antes do dia da corrida. "Eu não fazia ideia!"

Mas Trachtenberg não estava muito preocupado. A maratona simplesmente não era grande coisa, ele disse, e ele ainda não tem certeza de quem sabia exatamente o que ele estava fazendo naquela manhã úmida de setembro.

“Minha mãe devia saber que eu ia fazer isso porque eu ficaria fora por um bom tempo”, ele disse. “Mas ela não se lembrou da corrida ou de qualquer coisa incomum naquele dia. Não foi tão notável”.

Ele terminou em 32º lugar com um tempo de 3 horas 22 minutos e 4 segundos - o suficiente para ser premiado com uma placa - não tendo parado para beber nenhum líquido durante toda a corrida. “Lembro que havia refrigerante de graça no final e eu podia tomar o quanto quisesse”, ele disse. “Eu me lembro de beber seis latas de refrigerante no final, esse foi o meu prazer.”

Após um dia de folga, Trachtenberg voltou à prática de cross-country. Ele venceria uma corrida 13 dias depois e concorreria à uma vaga na Universidade de Princeton.

Há apenas 10 anos ele percebeu que sua participação na maratona de 1970 era algo, como ele disse, “digno de menção”.

Um ex-colega ficou chocado ao saber de seu passado como corredor. “Eles me disseram que eu deveria ser tratado como a realeza”, afirmou. “Não tirei nenhuma foto porque não pensei nisso como algo que alguém acharia tão importante 50 anos depois.”

A modesta corrida do Central Park com seus 127 participantes se transformou em uma maratona por cinco bairros em 1976 e, desde então, se transformou na maior maratona do mundo. Houve um 1.283.005 finalistas no total em 49 corridas, apoiados por milhões de espectadores e milhares de voluntários.

Essa explosão de popularidade ainda é um choque para Trachtenberg, que não corre no Central Park desde 1975 e não participa de uma maratona desde 1978.

“O espetáculo é impressionante - obviamente, será extremamente emocionante para mim”, ele disse. “Eu chorei um milhão de vezes.”

Trachtenberg fala da corrida como um verdadeiro nova-iorquino, com a mesma reverência do diretor da corrida, Ted Metellus, que nasceu no Bronx.

“Quando você pensa em um evento que já dura 50 anos, isso é 50 anos de legado, de comunidade”, disse Metellus. “E não são apenas os corredores, são os voluntários, são a comunidade, são os parceiros.”

“Todo mundo tem uma grande ou pequena história sobre a maratona de Nova York”, ele acrescentou, “e este ano será a maior festa de ex-participantes do mundo”.

É uma festa que Trachtenberg não poderia deixar passar.

No início de nossa conversa, ele chamou a corrida de uma grande reunião e talvez uma grande despedida. Ele está perto dos 70 e não sabe se será capaz de terminar a corrida.

Ele realmente quer correr pela Ponte Verrazzano, disse a princípio. Ah, mas ele gostaria de chegar até os locais que frequentava no Queens, acrescentou. Mas se ele estiver muito longe, pode muito bem cruzar a ponte Queensboro em Manhattan, certo? E como seria legal terminar no Central Park novamente, não?

No final, ele mudou de tom. Talvez ele participe da maratona de Nova York novamente, ele disse, sendo tomado por uma empolgação. Ele planeja fazer uma substituição de válvula cardíaca, e não seria divertido se ele pudesse comparar seus tempos de antes e depois da cirurgia?

Falando quase como um jovem de 16 anos entrando na primeira maratona de Nova York por um impulso. /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES.

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