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Corredora intersexual faz cirurgia para poder competir, mas procedimento causa problemas

Annet Negesa nasceu com genitais femininos externos, mas também com genitais masculinos internos

Geneva Abdul, O Estado de S.Paulo

17 de dezembro de 2019 | 09h00

Annet Negesa havia acabado de treinar em Kampala, Uganda, em junho de 2012, quando recebeu uma ligação de um médico do órgão mundial do atletismo. Ele disse que ela não poderia mais participar nos Jogos Olímpicos de Londres porque seus níveis de testosterona estavam elevados demais.

"Voltei para casa e comecei a chorar", ela lembrou. Negesa tinha 20 anos na época e era uma das principais atletas de seu país, uma promissora corredora de média distância que havia estabelecido um recorde nacional de 800 metros no início do ano, em Hengelo, na Holanda. Ela foi tricampeã nacional e levou para casa uma medalha de ouro nos Jogos da África em 2011. A Federação de Atletismo de Uganda a nomeou atleta do ano.

O World Athletics, anteriormente a Associação Internacional de Federações de Atletismo (IAAF), órgão mundial do atletismo, não surpreendeu Negesa usando drogas que aumentariam seu desempenho. Em vez disso, ela é uma atleta intersexual.

Ela se identifica como mulher e nasceu com genitais femininos externos, mas também com genitais masculinos internos que produzem os mesmos níveis de testosterona de um homem. Segundo as autoridades esportivas, isso dá a ela uma vantagem injusta sobre a maioria das mulheres em alguns eventos.

O que torna Negesa diferente de tantos outros atletas intersexuais é que ela tentou alterar seu corpo cirurgicamente para poder continuar competindo. Negesa alega que um médico da World Athletics recomendou a cirurgia. A federação nega isso.

Durante sete anos, Negesa, 27 anos, se recusou a falar sobre o que aconteceu. Mas o tempo pouco ajudou a amenizar suas queixas. "Agora vejo meu corpo de forma diferente, muito, muito diferente", disse ela. "Não sei como falar sobre isso."

Os anos após a cirurgia têm sido um problema. Negesa enfrentou persistentes dores de cabeça e dores nas articulações. Seu tratamento pós-operatório, ela disse, não incluiu o tipo de tratamento hormonal que poderia ter ajudado seu corpo a se adaptar à mudança.

"O que aconteceu com Annet é perigoso e aconteceu porque ela queria competir", disse Payoshni Mitra, pesquisadora e ativista de gênero e esportes que deu aulas sobre o tópico de atletas intersexuais.

Na última década, Mitra deu apoio a várias atletas intersexuais, incluindo Caster Semenya, campeã sul-africana de média distância, e Dutee Chand, a velocista indiana. O caso de Negesa, no entanto, foi um dos mais difíceis para Mitra se reconciliar porque Negesa optou por fazer uma cirurgia.

Há anos, o World Athletics se esforça para criar regras que mantenham condições equitativas para a esmagadora maioria das mulheres nascidas apenas com apenas a genitália feminina, sem afetar os direitos humanos das pessoas intersexuais, que representam cerca de 1 em cada 2.000 nascimentos. Um estudo deste ano descobriu que atletas do sexo feminino com níveis masculinos de testosterona estão super-representadas nas corridas de média distância das mulheres.

A World Athletics, em uma década de pesquisas, constatou que quase 7 em cada 1.000 atletas de elite são atletas intersexuais com níveis de testosterona na faixa masculina. Alguns endocrinologistas concluíram que ainda não está claro se a alta testosterona dá aos atletas uma vantagem competitiva, mas muitos cientistas acreditam que sim.

Após anos de litígio, o Tribunal de Arbitragem do Esporte confirmou em maio as restrições à testosterona da World Athletics para atletas do sexo feminino em corridas com distâncias entre 400 e 1.600 metros. O tribunal decidiu por 2-1 que as restrições eram realmente discriminatórias, mas também um meio “necessário, razoável e proporcional” para atingir a meta do Mundial de Atletismo de preservar condições justas nos eventos de atletismo feminino. A maioria das mulheres, incluindo atletas de elite, tem níveis naturais de testosterona de 0,12 a 1,79 nmoles (um bilionésimo de um mole) por litro, disse a World Athletics, enquanto a faixa masculina típica após a puberdade é muito maior, de 7,7 a 29,4 nmoles por litro.

Atletas intersexuais que desejam participar de eventos de corrida de mulheres a de média distância devem tomar medicamentos supressores de hormônios e reduzir os níveis de testosterona abaixo de 5 nmoles por litro por seis meses antes da competição, e depois manter esses níveis mais baixos.

Mas Negesa, a mais velha de nove irmãos criados em uma vila em Jinja, Uganda, a sudeste do Nilo, teve uma intervenção muito mais invasiva depois que soube em 2012 que não poderia mais competir.

Segundo ela, um médico da World Athletics, Stéphane Bermon, lhe disse que ela precisaria se submeter a um tratamento médico e recebeu a cirurgia como sua primeira opção: uma gonadectomia para remover seus testículos internos.

“Eu amo tanto meu esporte, por isso decidi fazer a cirurgia”, disse ela em uma recente entrevista em vídeo da Alemanha, onde mora.

Depois que Negesa apareceu em um documentário na rede ARD da televisão alemã em outubro, o World Athletics emitiu uma declaração negando que houvesse participado ou recomendado um tratamento específico a Negesa.

“O Dr. Bermon jamais conheceu a atleta em questão e não esteve na consulta em Nice nem na cirurgia à qual ela se refere em Uganda”, afirmou o comunicado. Através de um porta-voz da World Athletics, Bermon se recusou a comentar.

Negesa disse que viajou sozinha para Nice para fazer exames médicos logo após saber que não poderia competir. Ela lembrou de ter tido seu corpo medido por dois médicos que falavam francês. Negesa fala suaíli e inglês.

“Foi muito estranho”, ela lembrou. “Eu estava envergonhada”.

Ela voltou a Kampala para tratamento e pagou US$ 900 pelo procedimento.

Na manhã de sua cirurgia em Kampala, ela pouco sabia do que estava prestes a ser submetida. Os médicos haviam lhe dito que seria uma cirurgia simples e que ela voltaria à competição em algumas semanas.

“Acordei pela manhã sentindo cortes no meu corpo”, disse ela. “Fiquei muito assustada. Eu não sabia seria uma cirurgia aberta.

Ela não voltou ao esporte e sofreu de depressão e dores nas articulações desde a operação.

Os registros médicos de Negesa do Women's Hospital International & Fertility Center em Kampala foram revisados pelo The New York Times e confirmam que o World Athletics, então conhecido como IAAF, recomendou um exame médico completo, citando os altos níveis de testosterona em seu corpo. O relatório afirma que, depois de testes em Nice, ela foi submetida a uma gonadectomia em Kampala. O documento afirma que o cirurgião de Kampala, Edward Tamale Sali, não a iniciou com terapia hormonal porque estava aguardando novas discussões com Bermon.

Tamale Sali se recusou a comentar.

Em 2013, Bermon, agora diretor do departamento de saúde e ciência da World Athletics, publicou um relatório citando quatro atletas não identificados de países em desenvolvimento que foram encaminhados para hospitais na França por níveis naturalmente elevados de testosterona.

“Acredito que ela tenha sido a primeira”, disse Negesa sobre os quatro atletas citados no estudo. Ela disse que Bermon foi o oficial de atletismo mundial que a chamou pela primeira vez em 2012.

Após a participação de Negesa no documentário alemão em setembro, 25 atletas franceses escreveram ao World Athletics, ao Comitê Olímpico Internacional e ao ministro de esportes e saúde pedindo uma investigação. O ministro francês do esporte e o ministro da saúde abriram uma investigação conjunta em outubro.

Em seu comunicado, a World Athletics disse que não aconselha os atletas sobre os tratamentos preferidos e não o fez neste caso. A federação global “nunca obrigou nenhum atleta afetado por seus regulamentos a se submeter a uma cirurgia, nem pagou por qualquer tratamento".

Tradução de Claudia Bozzo

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