Corrida acaba no "ônibus-prego"

Para todos os corredores, a Maratona Internacional de São Paulo teve um fim. Nem que sob quatro rodas, sentado nas confortáveis poltronas do "ônibus-prego", chamado assim por recolher os atletas "pregados", cansadíssimos depois de tanto esforço. Integrante de todas as corrida de longa distância, o veículo é colocado à disposição dos corredores pela organização. Sua função é levar sãos e salvos aqueles que, por algum motivo, não conseguiram completar os 42,195 quilômetros de prova no tempo máximo de 6 horas. O primeiro deles - que podem passar de cinco, dependendo do número de homens e mulheres exaustos pelo caminho - saiu de perto do Obelisco do Ibirapuera perto das 9h30, atrás dos 8 mil competidores, sempre escoltado por uma ambulância, último a fechar o cortejo. A regra é simples: ficar na cola do último atleta, andando devargazinho e parar cada vez que alguém pedir para subir. O primeiro a usar o serviço foi Celso Ricardo de Azevedo, resgatado após seis quilômetros de corrida, na saída do Túnel Presidente Jânio Quadros. Tem gente que só conhece o percurso inteiro da maratona graças ao prego, como a doméstica Raquel Telles, de 34 anos. "No ano passado, entrei no km 17. Hoje, parei no 25. Só cheguei até o fim por causa do ônibus." Engana-se quem pensa que somente os cansados atletas anseiam pela chegada do ônibus, também conhecido como podrinho. Os funcionários da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) torcem para que ele passe logo. "Estou aqui desde as 5h30, não agüento mais", reclamava um marronzinho, perto das 13 horas, na Ponte Cidade Universitária. É que só após a passagem dos pregos o trânsito pode ser liberado. A demora justifica-se pela quantidade de atletas que estavam no câmpus da USP e resolveram aceitar a carona. Foi lá que subiu o cozinheiro José Carlos Pereira, de 58 anos. Cansado, colocou fim à sua prova no km 33, "Achei que não ia terminar bem e resolvi parar". Veterano nas corridas - a de hoje foi a sua 33.ª -, José conta que pela primeira vez precisou de ajuda motorizada. "A decepção sempre vem, mas fiquei consolado quando vi o amigo ali". Com um sorriso no canto do lábio, José Carlos vira o rosto e aponta para a fileira do outro lado do corredor. Perto da janela, está um "prego" ilustre: o queniano Henry Kapkyai, de 21 anos, que chegou a liderar a Maratona Internacional de São Paulo por alguns quilômetros mas só voltou para o Ibirapuera pegar sua medalha de participação mais de 5 horas depois da largada.

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