Corrida maluca

Quando era rapazola de usar calças curtas (não bermudas), um filme que fez muito sucesso se chamava Deu a louca no mundo. Enredo simples: um grupo de motoristas saiu atrás de um tesouro escondido por bandidos que sofreram acidente numa estrada americana. Cada vez que alguém se aproximava do objetivo, era derrubado por um concorrente. Pois o Brasileiro deste ano está assim: na hora em que se imagina que um time vai deslanchar, leva uma rasteira, fica atordoado, é ultrapassado. Em seguida, se levanta e aplica golpe em outro rival. E assim sucessivamente. Como vai terminar? Cada vez tenho menos ideia. Só sei que está divertido, apesar de muito azedume em comentários.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

12 de setembro de 2011 | 00h00

O Corinthians, por exemplo, faz uma força tremenda para despencar - e não consegue. Há semanas, sua rotina se divide mais entre derrotas e empates do que em vitórias. Era de supor que, a esta altura, estivesse a acompanhar Palmeiras e Fla ladeira abaixo. No entanto, se sustenta em primeiro lugar. Consequência dos muitos pontos que acumulou na espetacular largada? Sim, sem dúvida. Mas também incompetência de adversários que não mantêm regularidade.

O Corinthians que se apresentou na tarde de ontem no Engenhão foi sombra do grupo combativo que no meio da semana fez 2 a 1 de virada no Flamengo. O futebol corajoso foi trocado por postura confusa, a eficiência cedeu lugar para a indecisão. Perdeu para o Fluminense por 1 a 0 e poderia ter sido por mais, sobretudo pela etapa inicial ruim.

Na primeira parte do clássico, o Corinthians se entregou com docilidade. Em menos de 15 minutos, o Flu teve duas chances, numa Júlio César interferiu, com defesa bonita. Na outra, Chicão salvou em cima da linha. O Flu ganhou a disputa no meio-campo e teve em Fred um de seus destaques. O centroavante guiou o time e fez o gol. Tite ensaiou mudanças - como a entrada de Paulo André no lugar de Ramon -, que na prática não resultaram em nada.

O máximo que conseguiu foi segurar o Flu e uma cabeçada de Paulo André, em cima da hora, que passou perto do travessão. Pouco para quem tem a pretensão de levantar a taça e teoricamente depende apenas de si para chegar ao título. É possível, pois não há um time sequer no qual se possa cravar favoritismo que vá além de uma rodada. O Corinthians encerra mais uma rodada em primeiro; porém, continua a brincar com a sorte. (Sorte de campeão?) Uma hora, o vento muda e o lamento será maior.

A maré oscila tanto que a bola da vez é o Flu, com quatro vitórias consecutivas e agora a seis pontos do próprio Corinthians (43 a 37). Deve-se levar isso em consideração? Quer minha resposta sincera? Não muito. E tomo outro carioca como exemplo. Escrevi na crônica de ontem que estava de olho no Botafogo, talvez o clube com futebol mais consistente, ou algo assim, neste momento.

Minha observação virou prato cheio para os que gostam de espinafrar cronista esportivo. O Bota foi a Curitiba todo prosa, certo de que poderia beliscar no mínimo um ponto. Que nada! Volta com surra de 5 a 0! No primeiro tempo, houve equilíbrio. Com o segundo gol paranaense (Marcos Aurélio, de pênalti, aos 10 da etapa final), o Bota desabou, lembrou o Palmeiras da Copa do Brasil.

O Vasco tem subido devagar e com segurança, não é mesmo? Sim. Mas, sempre que se prepara para o bote, leva uma pancada e vê o pote de ouro escapar-lhe das mãos. Foi assim ao ser goleado por Botafogo e América-MG. Seguiu sua sina com o empate por 1 a 1 com o Figueirense, numa tarde em que seus astros sofreram eclipse. A síntese foi Diego Souza ficar na cara do gol e desperdiçar chance aos 47 do segundo tempo. O Fla entrou em parafuso, com a derrota para o Atlético-PR. Só marca passo e empacou de vez nos 36 pontos.

O São Paulo foi a Porto Alegre confiante em seu retrospecto bom como visitante. Pouco incomodou o Grêmio, perdeu por 1 a 0, e deixou escapar a enésima oportunidade de recuperar de vez a primeira colocação.

E o Palmeiras? É o Wilson Grey do Brasileiro. Assim como o ator famoso por participar de muitos filmes, quase sempre como vilão ou coadjuvante, o Palestra se conforma com aparições de segunda linha. Perdeu por 3 a 0 do Inter - trinca de Damião -, recua algumas casas e deixa a torcida na mão. E irritada, ao não vislumbrar saída. Nem os corneteiros se animam a chiar, tamanho o desconsolo.

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