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Corrigindo o tempo

O tempo desmonta o passado, desfigura o que fomos e nos aproxima do esquecimento. Todo mundo sabe disso. Quando pouco fizemos na vida de notável essa condenação é até suportável. Ao contrário, quando a vida foi cheia de fatos e feitos que pareciam inesquecíveis, o silêncio dói bastante.

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

25 de janeiro de 2015 | 02h03

No esporte isso é particularmente comum. Há uma geração de esportistas no Brasil que cada vez mais se encaminha para um esquecimento tão injusto que é um verdadeiro escândalo. Trata-se dos Campeões Mundiais de basquete de 1959 e 1963, entre outras conquistas, que fizeram o basquete brasileiro se colocar sempre entre as quatro mais importantes seleções mundiais até a década de 70. É a geração de Amaury Pasos, Wlamir Marques, Menon, Vitor, Ubiratan, Edson Bispo dos Santos, Mosquito, Edvar Simões, Jatyr, Helio Rubens, Rosa Branca, Pecente, Succar e outros que devo estar esquecendo, pois cito de memória.

Sei que este é o país do futebol e que, justamente nesses anos, o futebol brasileiro estava no auge. Isto é, o Brasil não precisava de outro esporte, ou de outro atleta, para satisfazer sua obsessão de vitórias e conquistas no exterior: bastava o futebol. No entanto, a façanha dessa gente foi tão impressionante como as conquistas no futebol.

Um Mundial atrás do outro, uma Olimpíada atrás da outra essa geração teve a audácia de se meter entre a União Soviética e os Estados Unidos. Só aí pelos anos 70 a antiga Iugoslávia passou a ser a outra força, a quarta força, e integrar a elite dos vencedores. E dessa geração não existe um único documentário de nível, um único registro de sua passagem gloriosa pelo esporte. É isso que chamo de escândalo.

Agora que todas as atenções vão para a NBA, com camisetas do Chicago Bulls, do Lakers, do San Antonio Spurs pelas ruas, é importante lembrar que todos esses jogadores que nomeei, sobretudo Wlamir Marques e Amaury, jogariam tranquilamente na Liga americana. Alguns foram convidados, Rosa Branca, me parece, Amaury com certeza. Mas o mundo era outro e a época não convidava muito a viagens e à saída do próprio país.

Teriam feito sucesso. Sem desmerecer quem quer que seja, eram, a meu ver, tecnicamente melhores que todos os brasileiros que hoje estão na NBA, sem exceção. Ficaram todos por aqui e a recompensa foi pequena. Financeiramente foi nenhuma. Se, naquele tempo, no futebol não se ganhavam fortunas, no basquete então o ganho era praticamente nenhum. Todos tiveram que se virar para viver. Há quem tenha virado empresário, médico, professor, há quem ficou no esporte, mas do basquete não saiu nada.

Não é incomum que alguns tenham passado momentos difíceis. Esperava-se ao menos que fossem lembrados de vez em quando. Mesmo isso é meio difícil. Há um mês aconteceu um incidente que é um bom exemplo disso. O COB (Comitê Olímpico do Brasil) realiza anualmente o Dia Olímpico, uma dia de confraternização e celebração de eventos relativos a jogos olímpicos. No último dezembro a festa foi realizada no Teatro Municipal do Rio com toda a carga de simbolismo que a data e o local encerram, já que é lá que será realizada a próxima Olimpíada.

Pois bem, para essa festa o Comitê não lembrou, ou não quis, de convidar nenhum dos jogadores de basquete que fizeram parte daquela geração, sendo que é preciso assinalar que, por exemplo na Olimpíada de 1964 em Tóquio, a ÚNICA medalha conquistada por toda a delegação brasileira foi no basquete.

Mas não quero dar a impressão de que se trata de um pessoal ressentido e triste que vive a se queixar da vida. Apenas notam certas atitudes e dão respostas à sua maneira. A resposta que deram ao COB foi organizar aqui em São Paulo uma festa íntima, só dos jogadores e alguns amigos, para uma "auto-homenagem", na divertida expressão de Amaury Pasos. Afinal, pra que um campeão mundial precisa do COB?

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