Corrupção frustra esportes femininos no Afeganistão

Time não joga uma partida oficial há um ano

Rod Nordland, The New York Times

10 de maio de 2016 | 11h07

CABUL - Uma das áreas preferidas dos doadores ocidentais, os programas de esportes femininos, entraram em colapso no país.

Alguns são compostos apenas por uma jovem com cartão de visita e uma mesa, nas palavras de uma pessoa conhecedora dos fatos em sua descrição do críquete feminino, o esporte mais popular do Afeganistão. Outros, como o futebol feminino, conseguiram montar alguns times para jogar e treinar, mas não jogam uma partida internacional há anos.

Mesmo as relativamente poucas histórias encorajadoras, como a do taekwondo feminino, um dos esportes que pode enviar uma afegã às Olimpíadas do Rio, são, no máximo, sucessos limitados. A maior esperança de medalha no taekwondo feminino, Somaya Ghulami, 23 anos, atualmente mora no Irã e precisa se deslocar para treinar aqui. Ela contou que nunca conseguiria competir se estivesse vivendo em seu próprio país.

Trata-se de um fracasso retumbante da iniciativa ocidental de melhorar a vida das mulheres afegãs. Com poucas exceções, os programas esportivos foram tomados pela corrupção e se viram enfraquecidos pelos afegãos conservadores que nunca gostaram da ideia de ver moças em campos esportivos.

Um dos principais apoiadores dos esportes femininos no Afeganistão é o governo dos Estados Unidos, que gasta US$ 1,5 milhão anual em programas esportivos e educativos - sem contar a verba de US$ 450 mil para o críquete que as autoridades cancelaram ao perceber que a versão feminina não era praticada. Entretanto, as autoridades norte-americanas se recusaram a fazer declarações sobre esportes femininos.

Embora todos os esportes femininos daqui estejam sofrendo, nenhum fracassou tão espetacularmente quanto a seleção nacional de ciclismo. Celebrada em documentários, tema de um livro em 2014 e de uma série de reportagens, a equipe foi recentemente indicada ao prêmio Nobel da Paz - graças à promoção incansável de sua benfeitora, Shannon Galpin, que financiou a equipe por meio se sua instituição de caridade, Mountain to Mountain, com sede no Colorado, EUA.

Contudo, Shannon anunciou em sua página na internet, em março, que não mais patrocinaria a Federação Afegã de Ciclismo por causa do que ela descreveu como corrupção "descontrolada" por parte do antigo treinador da equipe e diretor da federação, Haji Abdul Sediq Seddiqi.

Shannon se aborreceu com o fato de que os presentes dos patrocinadores, incluindo mais de 40 bicicletas e outros equipamentos para corrida, avaliados em mais de US$ 100 mil, tenham sido roubados depois de entregues por sua organização à seleção e a Seddiqi.

Há pouco tempo, Seddiqi foi demitido dos cargos de treinador e chefe da Federação pelo presidente do Comitê Olímpico Nacional do Afeganistão, Mohammad Zaher Aghbar, que citou algo além da corrupção. Ele afirmou que Seddiqi casou e se separou sucessivamente de três das moças de sua equipe.

"Ele se casou com três delas - três vezes - e todas as garotas reclamavam dele", contou Aghbar.

Durante entrevista, Seddiqi rebateu as acusações de corrupção, afirmou que a organização de Shannon ainda estava financiando a federação de ciclismo e qualificou as acusações contra ele de "um monte de porcaria inventada". Seddiqi, 62 anos, reconheceu que se divorciou três vezes e que agora estava casado com uma mulher de 25 anos, mas negou que a esposa atual ou as antigas integrassem a equipe.

Um campeão nacional de ciclismo (Seddiqi também controlava a seleção masculina), Hashmat Barakzai, que recentemente fugiu para a Alemanha em busca de asilo, disse que "Seddiqi usava a seleção feminina como poupança pessoal e parque de diversões amoroso".

A corrupção em outros esportes femininos pode não ser tão descarada, mas continua sendo um grande problema. Diana Barakzai, que atuou pela seleção feminina de críquete quando esta estava em atividade, em 2009, disse ter sido procurada recentemente pela Comissão Afegã de Críquete para chefiar a equipe feminina.

"Falaram que já haviam fechado um acordo com alguém que pagaria US$ 180 mil pelo cargo, mas se eu estivesse disposta a pagar US$ 200 mil, o posto seria meu", ela disse, acrescentando que recusou a oferta.

Diana Barakzai, sem parentesco com Hashmat Barakzai, disse ter se surpreendido com a exigência, pois ela presumia que não daria para ganhar dinheiro com o críquete feminino. Além disso, a seleção nacional não competia - nem sequer treinava - há pelo menos três anos.

Acontece, porém, que a embaixada dos EUA concedeu uma verba de US$ 450 mil no ano passado para promover o críquete feminino, enviando o dinheiro à Lapis Communications, organização privada, para cuidar da administração. O financiamento foi devolvido à embaixada, disse Sarah-Jean Cunningham, diretora da Lapis.

"O programa não ganhou a força necessária para justificar novos investimentos", ela explicou.

Shafiq Stanikzai, diretor executivo da Comissão Afegã de Críquete, negou as acusações de Diana Barakzai.

"Trata-se de uma afirmativa totalmente falsa, inventada por ela, uma coisa estúpida", ele disse.

Stanikzai declarou que existe um programa nacional de críquete feminino que funciona em segredo.

"Não divulgamos o fato em função de determinadas limitações. A seleção está funcionando, mas em um nível muito básico, pois elas não são boas o suficiente para competir em nível internacional", declarou o diretor.

Já Peter Anderson, treinador australiano de críquete que foi trazido ao Afeganistão vários anos atrás para treinar a seleção feminina, disse que a comissão era tão contrária à participação feminina que desmontou a equipe existente. Anderson declarou que se demitiu após ser enganado para treinar o time extinto.

Tuba Sangar é a atual chefe do críquete feminino - a pessoa que Anderson descreveu como "uma garota num escritório com um cartão de visita". Ao ser contatada, ela disse que não tinha permissão para comentar.

Robina Jalali participou da primeira seleção feminina a competir, em 2004, nas Olimpíadas pelo Afeganistão depois que o Talibã foi derrubado. Corredora, ela era uma das duas atletas naqueles jogos. Agora diretora de esportes femininos do Comitê Olímpico Internacional, ela disse que nem as embaixadas estrangeiras dão muita atenção.

"O principal problema é a insegurança crescente que temos; depois, a violência contra as mulheres, que está crescendo. Elas não se sentem seguras para treinar. Agora vemos que a juventude está simplesmente fugindo do país, o que mudou a mentalidade das embaixadas, que acham que não podem dar visto a uma garota para competir porque ela não vai voltar."

A seleção feminina de futebol, muitas vezes citada como exemplo de sucesso, não joga internacionalmente desde 2014. Existem planos para jogar em algum momento deste ano, mas nem a data nem o país onde a partida vai se realizar foram definidos, explicou Khatool Shahzad, dirigente da Federação de Futebol./ THE NEW YORK TIMES

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