'Corrupção na Fifa virou um problema endêmico'

ENTREVISTA

Jamil Chade CORRESPONDENTE/ GENEBRA, O Estado de S.Paulo

26 de outubro de 2010 | 00h00

MICHEL ZEN RUFFINEN

Ex-secretário-geral da Fifa

Acusado de propor propina a membros do Comitê Executivo da entidade

GENEBRA

Ele se transformou no pivô do maior escândalo de corrupção da Fifa em décadas. O ex-secretário-geral da Fifa Michel Zen Ruffinen foi pego em gravações secretas, divulgadas pelo jornal inglês The Sunday Time, aparentemente oferecendo-se para intermediar a compra de votos de membros do Comitê Executivo da Fifa para garantir a vitória de uma candidatura para a Copa de 2018. Agora, rejeita as acusações e jura inocência. Em entrevista ao Estado, o ex-cartola insiste que a Fifa precisa rever "de forma urgente" seus procedimentos e aponta: "A corrupção na entidade é hoje endêmica." Em 2002, Ruffinen foi expulso da Fifa pelo presidente Joseph Blatter depois de acusá-lo de gestão desleal dos recursos da entidade e de se opor a sua reeleição. Desde então, sempre apareceu como a vítima dos esquemas da Fifa.

O sr. aparece em gravações secretas oferecendo-se para intermediar a venda de votos.

Eu nunca ofereci nada. É um escândalo o comportamento do jornal e advogados já entraram na Justiça. O que eu disse eram apenas as impressões que eu tinha sobre cada membro do Comitê. Nada mais.

Mas o sr. fala em valores para a contratação de seus serviços...

Sim, sou eu nas gravações. Mas o que eu disse não significa que eu ofereceria serviços. Sou contra o pagamento de propinas para a obtenção de votos.

Mas a Fifa saiu prejudicada diante do escândalo e do afastamento de seis dirigentes.

A Fifa precisa ter um controle externo. Uma comissão independente precisa ser nomeada com o mandato de reavaliar as práticas da Fifa. A corrupção virou um problema endêmico na entidade.

Mas a Fifa alega que tem um Comitê de Ética.

Um órgão interno não funcionará nesse caso. A solução terá de vir de fora. Se a Fifa quer proteger sua credibilidade, terá de adotar essa postura.

Em 2007, o Brasil foi escolhido para ser sede da Copa de 2014 sem qualquer tipo de concorrente e com um acordo na América do Sul de que não haveria outro candidato. O sr. acha isso normal?

Não sei o que pensar. Não estava mais na Fifa quando isso ocorreu. Mas é verdade que o caderno de encargos hoje que a Fifa coloca sobre um país não pode ser cumprido por qualquer um. Hoje, só grandes economias tem a capacidade de realizar o que a Fifa exige.

Diante desse escândalo, o sr. acredita que a Fifa deva mudar a forma de eleição das sedes das Copas do Mundo no futuro. Hoje, são apenas 24 pessoas com esse poder. Não estaria na hora de as 208 federações de futebol terem voto nisso?

Isso é algo para a Fifa decidir. Mas certamente é uma questão que ficará pendurada sobre a cabeça de todos na entidade a partir de agora.

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