Daniel Zappe/CPB/MPIX
Daniel Zappe/CPB/MPIX

CPB faz 'peneira' nas Paralimpíadas Escolares de olho em Tóquio-2020 e Paris-2024

Novo projeto seleciona adolescentes com potencial para buscar medalhas nos dois próximos Jogos Paralímpicos

Rafael Franco, O Estado de S.Paulo

11 Fevereiro 2018 | 07h00

O Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) começou a colocar em prática neste ano um novo projeto que visa garimpar, por meio das Paralimpíadas Escolares, potenciais medalhistas para as duas próximas edições dos Jogos de Tóquio-2020 e Paris-2024. Além disso, a iniciativa espera ampliar os horizontes do Brasil para a descoberta de talentos que muitas vezes não fazem parte de clubes ou não recebem muitas oportunidades de mostrar seu valor.

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Com base no desempenho que tiveram na grande competição escolar realizada em 2017, a entidade selecionou 37 adolescentes do atletismo e da natação, as duas modalidades mais vitoriosas do Brasil no esporte adaptado, que foram convocados para um camping de duas semanas no CT Paralímpico, em São Paulo. 

Vinte nadadores e 17 competidores do atletismo chegaram ao enorme local, cuja construção é o principal legado físico motivado pela Paralimpíada do Rio-2016, no último dia 21 de janeiro, e só foram embora para as suas casas na última segunda-feira. Neste período, eles foram submetidos a treinamentos de alta performance, realizaram uma série de avaliações e ainda foram orientados por profissionais que integram as seleções principais paralímpicas do Brasil.

O recém-criado Camping Escolar Paralímpico reuniu adolescentes de 13 a 18 anos, de 14 Estados e do Distrito Federal, que representaram as suas respectivas regiões com destaque na última edição das Paralimpíadas Escolares. E a experiência serviu também para estreitar a relação dos meninos e meninas com o CPB e para lapidá-los para que possam se tornar novas "joias" do Brasil no esporte adaptado.

"O Camping Escolar Paralímpico é a primeira de uma série de iniciativas que temos planejadas para a detecção e o desenvolvimento de jovens talentos. Por meio do projeto, pudemos trazer atletas que se destacaram nas Paralimpíadas Escolares para vivenciar um pouco mais de perto o esporte de alto rendimento. É benéfico para eles, que têm essa oportunidade, e para a nossa área técnica, já que tivemos a chance de avaliá-los de maneira mais profunda", afirmou Mizael Conrado, ex-atleta paralímpico do Brasil e atual presidente do CPB, em entrevista ao Estado

Uma nova reunião de adolescentes selecionados por meio das Paralimpíadas Escolares também já está programada para julho, quando os mesmos poderão marcar presença em mais um estágio deste camping do CPB porque estarão no período de férias dos seus colégios. 

E Mizael também revelou que o custo estimado para o projeto com a garotada é de R$ 700 mil para 2018 e enfatizou que as Paralimpíadas Escolares são vistas pelo CPB como principal celeiro para a formação e revelação de novos campeões para os ciclos que visam principalmente Tóquio-2020 e Paris-2024. 

"As Paralimpíadas Escolares são a maior porta de entrada do jovem no esporte adaptado no Brasil. Apenas no ano passado foram mais de 900 jovens inscritos, de 26 Estados mais o Distrito Federal. Oportunizar a prática esportiva para a pessoa com deficiência é vital para que atletas sejam formados, e nenhum evento cumpre este papel com maior eficácia do que as Paralimpíadas Escolares. Não à toa nomes como Petrúcio Ferreira, Lorena Spoladore, Alan Fonteles (todos do atletismo) e Leomon Moreno (do goalball), entre outros, surgiram deste evento", ressaltou o presidente do CPB ao Estado.

METAS SEM EUFORIA

Embora não esconda a empolgação com o projeto que visa melhorar o processo de formação de futuros medalhistas por meio da "peneira" que o CPB faz na grande competição escolar incluída em seu calendário, Mizael também prefere ainda não estabelecer metas de pódio ou exibir otimismo exagerado para Tóquio-2020 e Paris-2024. Porém, enfatiza que o Brasil é, há pelo menos uma década, uma das grandes forças no cenário paralímpico mundial.

"Já há algum tempo é possível dizer que o Brasil é uma potência paralímpica, sendo que estamos entre os primeiros do quadro geral de medalhas dos Jogos desde ao menos Pequim-2008. Não trabalhamos com um número fechado (de pódios almejados), pois a trajetória de um jovem depende de uma série de variáveis que pode em muitos casos fugir do nosso controle. Mas a intenção é dar a eles todo o suporte necessário para se tornar um atleta de alto rendimento no futuro", enfatizou Mizael.

Embora contenha a euforia, o dirigente aposta que a seleção brasileira manterá nos Jogos de Tóquio e Paris o protagonismo que conquistou por meio de nomes como o nadador Daniel Dias, maior atleta paralímpico da história do País.

"Estamos em processo de finalização do nosso planejamento estratégico, mas já é possível dizer que o Brasil irá ao Japão e à França para desempenhar o papel de potência do esporte paralímpico, como já foi nas últimas edições da competição. As metas ainda estão sendo discutidas, pois estamos em um processo de avaliação do cenário internacional e discussão interna com as federações responsáveis pelas modalidades do programa dos Jogos Paralímpicos", destacou Mizael.

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Rafael Franco, O Estado de S.Paulo

11 Fevereiro 2018 | 07h00

Um dos garotos selecionados para o camping do CPB, Lucas Roberto, de 18 anos, é considerado uma das principais promessas da natação paralímpica do Brasil. Atleta do Vasco, ele faz parte da classe S10, a que classifica os atletas com menor grau de deficiência, e é cotado para preencher no futuro o lugar de nomes consagrados da modalidade, como André Brasil.

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Para ganhar este status, Lucas teve de superar um drama pessoal que quase o fez perder a sua perna direita. Atropelado por um carro quando tinha 10 anos, o garoto precisou reimplantar o membro o porque corria grande risco de morte em uma cirurgia de amputação por já ter perdido muito sangue antes de chegar ao hospital em que foi operado, em Duque de Caxias (RJ).

“Tive o acidente em 2010. Estava limpando a piscina na casa do meu avô em Xerém e depois sai pra encontrar um amigo. Estava sentado na calçada e veio um bugue, que arrancou a minha perna”, lembrou Lucas, que ganhou alta dos médicos no dia em que completou 11 anos, após mais de um mês internado. “Fiquei em coma e acordei cinco dias depois da cirurgia, além de 23 dias no CTI (Centro de Tratamento Intensivo).”

A partir dali, começou a fazer fisioterapia e acabou indo parar no Vasco, que é referência na formação de atletas paralímpicos, após ter indicada a hidroterapia para a sua recuperação. Estava com 13 anos. Sua mãe, Patrícia, entrou no clube com o menino no colo após chegar a ser barrada por seguranças, mas conseguiu um teste para o garoto após aprontar um escândalo para ingressar em São Januário.

O “chilique’’ valeu a pena, pois a estrutura do clube ajudou muito o menino a se recuperar e o transformou em atleta paralímpico, que vem colecionando medalhas, entre elas as que faturou nas Paralimpíadas Escolares. “Disputo esta competição desde 2015, quando ganhei medalhas de bronze e prata, e agora em 2017 ganhei um ouro e duas pratas”, destacou Lucas, que é especialista no nado costas.

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Bicampeão mundial juvenil, Pablo Furlan é 'joia' do atletismo paralímpico do País

Paratleta de apenas 17 anos se destacou nas Paralimpíadas Escolares no ano passado

Rafael Franco, O Estado de S.Paulo

11 Fevereiro 2018 | 07h00

Com apenas 17 anos de idade, o atleta paralímpico Pablo Furlan tem nome e sobrenome que fariam aficionados em futebol, principalmente os mais velhos, se lembrarem de Pablo Forlán, que enumerou títulos importantes com a camisa do Peñarol e se firmou como ídolo do futebol uruguaio. Não existiu, porém, nenhuma inspiração dos pais do garoto na trajetória do ex-jogador, que também ergueu taças com a camisa do São Paulo, para batizar o menino nascido em 17 de abril de 2000.

Além do nome parecido, a única coisa que Pablo tem em comum com o ex-lateral, pai do também ídolo uruguaio Diego Forlán, é a raça que exibe como esportista e a determinação que desde cedo precisou mostrar para superar as barreiras que a sua condição de deficiente físico lhe impuseram. 

Hoje considerado uma "joia" a ser lapidada no atletismo paralímpico brasileiro, Pablo já é bicampeão mundial juvenil da classe T13 (baixa visão) com os ouros que ganhou nas provas dos 100 metros e do salto em distância no ano passado, na Suíça. Com apenas de 20% a 30% de visão, ele antes disso foi um talento descoberto em sua escola quando tinha 13 anos e também driblava a sua deficiência jogando futebol com os amigos.

Para ingressar na escola, porém, Pablo precisou contar com a perseverança e confiança da mãe em seu potencial após ser vítima de preconceito, que ele admite ser muito comum com muitos garotos que levam uma vida reclusa pelo simples fato de serem portadores de deficiência e consequentemente serem excessivamente resguardados pelos pais.

"Graças a Deus minha mãe sempre me tratou como uma pessoa normal e nunca me escondeu. E muitas mães acabam escondendo em casa as crianças com deficiência que poderiam estar praticando o futebol e o atletismo, assim como aconteceu comigo. A minha maior dificuldade foi na escola. Quando entrei na 1ª série, disseram que eu não poderia ler e escrever pela minha deficiência, mas minha mãe 'bateu o pé', aumentou as letras para que pudesse as enxergar e eu aprendi a ler e escrever", afirmou Pablo, em entrevista ao Estado, na qual também lembrou que está prestes a começar uma faculdade. "Finalizei o ensino médio e já estou matriculado em um curso de educação física na universidade Anhanguera", completou.

O jovem atleta paralímpico vai completar 18 anos no próximo dia 7 de abril e disputa o Circuito Loterias Caixa, que é o mais importante evento paralímpico nacional de atletismo, natação e halterofilismo, desde os 14 anos. Atualmente, ele treina na Fundação de Amparo ao Esporte do Município de Araraquara (Fundesport), que fica a 35 quilômetros de Matão, cidade onde mora no interior paulista.

No ano passado, além de ser bicampeão mundial, Pablo se destacou nas Paralimpíadas Escolares, fato que o levou a ser selecionado pelo Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) para participar de um camping no moderno CT da entidade, em São Paulo, onde 37 adolescentes, sendo 17 do atletismo e 20 da natação, se reuniram entre os dias 21 de janeiro e 5 de fevereiro. No período, Pablo recebeu o tratamento especial da entidade, que com este seu novo projeto visa garimpar potenciais medalhistas para os Jogos de Tóquio-2020 e Paris-2024.

"Foi muito legal, uma grande oportunidade e uma ótima iniciativa do CPB. Apesar de eu já estar sempre competindo com adultos no alto rendimento, foi importante ver como os atletas da seleção treinam no alto rendimento, trabalhando em dois períodos. E é sempre importante estar com os atletas da nossa idade. Isso faz a gente crescer como atleta e evoluir cada vez mais. E lá aprendemos como o atleta precisa ter responsabilidade", ressaltou Pablo, que aposta que o projeto terá papel fundamental para fazer o Brasil crescer como potência do esporte paralímpico.

"Vai ser muito importante, pois o CPB vai estar cuidando mais da base e, quando chegar mais futuramente, eles (do comitê) terão um controle mais específico sobre alguns e vão fazer os atletas evoluírem mais rápido, formando novos campeões. Hoje, no esporte paralímpico, o Brasil já é uma potência e o atletismo do País também é. Fui campeão mundial no ano passado e o meu objetivo agora é estar na Paralimpíada de Tóquio", projetou.

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