Márcio Fernandes/Estadão
Márcio Fernandes/Estadão

Cresce número de mulheres surfistas no Brasil

Antes marginalizadas, agora elas colocam a prancha debaixo do braço, mostram estilo e pegam as ondas que sempre sonharam

Paulo Favero, O Estado de S. Paulo

07 Março 2015 | 14h30

A Escola Pública de Surfe de Santos tem um motivo especial para se orgulhar nesta data em que se comemora o Dia Internacional da Mulher: pela primeira vez, desde que foi inaugurada, em 1992, a maior parte de novos matriculados para as aulas da modalidade esportiva é de mulheres. Segundo levantamento da prefeitura, 58% dos praticantes deste ano é do sexo feminino. “O surfe nunca esteve tão em evidência como agora”, explica Cisco Araña, professor e coordenador do projeto.

Ele aponta que são vários os fatores que ajudaram a promover a inserção de mulheres na modalidade, e entre eles destaca o título mundial do brasileiro Gabriel Medina e o respeito que os profissionais da escola têm com todos os alunos. “Antigamente existia muito preconceito com a presença de mulheres na água. Os surfistas não davam chance e muitas evitavam surfar de prancha e preferiam o bodyboard por causa dessa discriminação”, conta.

Cisco foi o primeiro surfista profissional de São Paulo e fez fama na década de 1970. Aos 58 anos, ele vê uma importante mudança de paradigma. “É o efeito Medina e aqui em Santos nós percebemos em todos os lugares. O carteiro vinha perguntar sobre ele, o vizinho, e isso trouxe pais mais felizes, que acompanham seus filhos nas aulas. Quebrou de vez o preconceito, pois ele é um garoto de família, que não faz apologia às drogas, e um ótimo profissional. Isso ajudou bastante.”

Ao garoto de Maresias, que está na Austrália para a disputa do Circuito Mundial de Surfe, a presença de mulheres no esporte é muito importante. Ele, inclusive, sabe que ajudou a inspirar muitas delas. “É verdade! Quero dar os parabéns para todas as mulheres e principalmente para as praticantes de surfe. Me sinto um privilegiado por ajudar a melhorar a imagem do esporte e espero que muitas mulheres realmente pratiquem, pois assim teremos novos talentos femininos no circuito.”

Prática. As aulas em Santos ocorrem três vezes por semana e têm uma hora de duração. São gratuitas e os equipamentos são emprestados para os alunos no período. Uma parte da aula, de aquecimento, é feita na areia, e depois os alunos vão para a água. Além da maioria feminina, o contraste de idade também é muito grande. Crianças e adolescentes dividem as pranchas com pessoas da terceira idade. Em alguns dias da semana, há aulas para crianças especiais, deficientes visuais e pessoas com mobilidade reduzida. Um outro dado interessante é que a escola possui professoras, o que ajuda no contato com o público feminino.

Aos 32 anos, Isabela Panza de Andrade festeja o fato de poder viver do surfe. Ela dá aula na escola, onde começou em 2006 e só paralisou suas atividades por um período após ficar grávida. “A maior parte dos meus alunos é de mulheres. Elas conquistaram um espaço muito importante, tabus foram quebrados e agora temos respeito”, comenta. Ela lembra que a escola trata todos da mesma maneira, o que ajuda na divulgação e chegada de novas garotas. “O mar está mais bonito e colorido. O crowd é de meninas”, afirma, citando uma expressão usada para definir quando o mar está cheio de surfistas.

Para o prefeito Paulo Alexandre Barbosa, de 36 anos, o aumento no número de mulheres é uma grande notícia. “Santos é uma cidade com mais mulheres do que homens, inclusive no serviço público. E hoje, como elas saem à luta para ocupar o espaço que é delas, é natural que as políticas públicas levem isso em conta, abrindo cada vez mais espaço às mulheres. Na escola de surfe, o aumento da procura dá o recado. A hora é delas”, conclui.

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Dona Elza desafia as ondas inspirada em Gabriel Medina

Aos 60 anos, moradora de Santos faz aula na Escola pública

Paulo Favero, O Estado de S. Paulo

07 Março 2015 | 14h30

Aos 51 anos, Elza Anunciata Rodrigues de Oliveira tentou subir pela primeira vez em uma prancha de surfe. Agora, nove anos mais velha, porém com aparência mais jovem, ela percorre as ondas na praia em Santos com a mesma desenvoltura das meninas que estão nas aulas da Escola Pública. “Não é a idade que faz a pessoa, é a mente. Comecei a surfar por curiosidade, mas na época minhas amigas falaram que não iriam por causa da idade”, conta.

Viúva há 20 anos, ela diz que seus filhos estranharam no começo, mas depois apoiaram a ideia. “Um deles chegou a sair mais cedo do escritório para ver se era verdade. Se eu soubesse que era tão bom, teria começado a praticar muito antes”, continua. “Tinha dor no joelho, colesterol alto. Melhorei muito com o esporte.”

Ela não falta a uma aula e elogia poder estar em contato com a natureza. Como não poderia deixar de ser, torceu muito para Gabriel Medina conquistar seu título mundial. “Adorei o tubo que ele pegou no Havaí. Se eu fosse mais nova, iria tentar aquilo”, brinca, garantindo que enquanto tiver forças, vai continuar pegando suas ondas no litoral paulista.

Nova geração. Carla Leticia, de 18 anos, Beatriz Franco e Lais Moraes, ambas de 16 anos, também estão nas aulas de surfe. Elas começaram há alguns meses, mas já conseguem se equilibrar em cima da prancha e surfar como diversão. “Eu sempre quis surfar. Fazia slackline, que precisa de muito equilíbrio, e pensei em praticar o surfe. Também faço faculdade de direito e tenho vontade de um dia ir para um lugar com outros tipos de onda”, revela, se referindo ao Havaí e à Austrália.

Já as amigas Beatriz e Lais começaram nas aulas em julho e estão adorando. “Quero trabalhar com isso no futuro”, projeta Bia. Já Lais conta que virou celebridade na sua família após o título mundial do Brasil no surfe. “As pessoas brincam e falam que eu sou a nova Medina da família. Acho que se ele conseguiu ser campeão, a gente também consegue”, diz, rindo.

Quem também aproveitou o dia de sol para surfar foi a pequena Giovana, de 10 anos, que vai às aulas acompanhada da mãe Carolina Zambelli, que também pega ondas. “É uma família de surfista”, conta Carolina. “Antes eu morria de vergonha de andar com a prancha debaixo do braço, pois causava estranheza. Agora isso mudou e as mulheres estão surfando cada vez mais.”

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