Crise atípica

Fiquei impressionado, nas últimas semanas, com a quantidade de pessoas pedindo a saída de Mano Menezes da seleção. Depois da derrota para a Alemanha, claro, a irritação do torcedor aumentou, e meu correio eletrônico recebeu ainda mais mensagens. Muitos não se conformaram quando o defendi após a eliminação na Copa América. Mantenho a opinião. Se fosse presidente da CBF, não o demitiria. Mas minha preocupação cresceu consideravelmente.

Eduardo Maluf, O Estado de S.Paulo

12 de agosto de 2011 | 00h00

O Brasil passa por momento atípico. Em certas ocasiões na história recente, o time mostrou dificuldades para enfrentar adversários inferiores tecnicamente, que montavam forte sistema defensivo e abdicavam do ataque. Acompanhamos esse fenômeno nas Eliminatórias para a Copa de 2002 e em alguns jogos antes de 2010. Por outro lado, houve épocas em que atropelávamos os bagrinhos, mas sofríamos contra os mais tradicionais. Agora, nossa seleção vai mal contra pequenos e grandes - que dão bastante espaço e proporcionam bons contra-ataques.

Em amistosos mais difíceis sob o comando de Mano, a equipe perdeu de Argentina, França e Alemanha e empatou com a Holanda. Na Copa América, não precisou jogar contra nenhum oponente de peso. Não fez gol contra a Venezuela e parou duas vezes no Paraguai.

Resumindo, os resultados têm sido os piores possíveis. O que é óbvio até para quem não acompanha futebol. Resta detectar o porquê dessa queda de rendimento. Em primeiro lugar, antes de atacarmos Mano, devemos analisar o elenco. E aí é que vejo o principal problema. A base da convocação tem sido correta. Faltam mais opções de qualidade. E um líder.

De alguns anos para cá, a seleção perdeu nomes de peso. Se voltarmos a 2006, vamos encontrar Cafu, Roberto Carlos, Ronaldinho, Ronaldo... No ano passado, mesmo com o grupo um pouco enfraquecido, Dunga ainda tinha, na África, nomes como Kaká e Luis Fabiano. E agora?

Pode não ser agradável, para nós, admitir que perdemos força, mas é fato que o nível de nossos melhores jogadores (aqueles que devem compor a seleção) caiu acentuadamente. Por exemplo: até quando vamos esperar que Pato decida jogos difíceis? Anteontem, desperdiçou uma oportunidade clara - depois, os alemães converteram as chances que tiveram. Na eliminação contra o Paraguai, também vacilou na frente do goleiro. A mim, parece claro que não podemos fazer apostas altas no atleta do Milan.

O lateral André Santos vai de fraco a regular. A mesma avaliação pode ser feita para Ramires, Lucas Leiva, Ralf, Fernandinho, Jadson... Daniel Alves se sai muito bem no grande time do Barcelona, mas está longe de ser craque. Lúcio tem currículo notável, porém está em final de carreira. Robinho deixou de ser o velocista que desconcertava os zagueiros com dribles rápidos e curtos. Ainda é útil, mas não desequilibra como fazia antigamente. Acho precipitado cobrar muito de Ganso. Neymar, sim, acredito que pode ser o grande nome brasileiro para 2014. Precisamos, no entanto, ter um pouco de calma com ele.

Nenhuma equipe do mundo conta com quatro, cinco ou seis craques. A maioria não tem nenhum. O Brasil, contudo, sempre se destacou pelo talento individual. Muito mais do que por esquemas táticos bem montados. Um time mais bem entrosado e equilibrado em campo poderia minimizar a má fase técnica. E esse é justamente o outro problema. Mano ainda não conseguiu encontrar a formação ideal, nem dar padrão de jogo. Não tem um centroavante confiável, volantes seguros e um meia que possa chamar de titular.

Muitos já sugerem o retorno de Ronaldinho Gaúcho. Sou contra. O flamenguista ainda precisa jogar mais uns quatro ou cinco meses para mostrar que a bola voltou a estar em primeiro plano na sua vida. Muitos querem Mano fora. Também não acho que essa seja a solução ideal. Paciência não dura muito, mas precisamos dar mais uma chance ao técnico. Certamente, até 2014, será mais fácil arrumar a equipe do que deixar em ordem estádios, aeroportos, estradas...

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