Crise gera pânico no futebol da Inglaterra

Temor é de que investidores abandonem os clubes do país

Jamil Chade, O Estadao de S.Paulo

23 de outubro de 2008 | 00h00

Construção de estádio adiada indefinidamente, temores de fuga de patrocinadores, dívidas maiores que os próprios patrimônios dos clubes e venda de jogadores para pagar os salários daqueles que ficam. O cenário bem poderia ser uma descrição do futebol em um país pobre. Mas, na realidade, é o que começa a ocorrer no futebol mais rico do mundo. A crise financeira está ameaçando explodir a bolha do futebol, principalmente na Inglaterra, onde clubes foram comprados por milionários estrangeiros que agora se vêem em apuros.Ontem, em entrevista ao jornal espanhol AS, especializado em esportes, o presidente da Fifa, Joseph Blatter, classificou a situação financeira dos times ingleses de "alarmante", principalmente com a chegada de capital russo, americano ou árabe. "A Uefa está muito atenta e trabalhando com uma auditoria independente no sistema de licenças", afirmou Blatter."Temos de ter cuidado quando esses investidores vêm com garantias bancárias para obter dinheiro que trazem aos clubes. A questão é o que ocorrerá quando esses investidores decidam levar seu dinheiro a outro lugar. Um clube precisa ter investidores da região, ou pelo menos do país", argumentou. "Temos de fortalecer a identidade nacional dos clubes."Tudo começou quando a seguradora americana AIG foi salva da falência pelo governo George W. Bush. A seguradora é a principal patrocinadora do Manchester United, um dos maiores clubes da Inglaterra, e logo ficou claro para a Federação Inglesa que as dívidas dos clubes chegavam a US$ 5,2 bilhões (algo como R$ 11,3 bilhões). Com as perdas de seus proprietários nas bolsas, o temor é de que as agremiações também comecem a sofrer.A agência Bloomberg estimou que apenas o russo Roman Abramovich, dono do Chelsea, perdeu mais de US$ 20 bilhões (R$ 43,5 bilhões) com a queda no valor das ações de sua empresa Evraz, uma produção de aço. No Liverpool, a situação é mais séria. No ano passado, os fundos americanos de Gillett e Hicks pegaram US$ 500 milhões (R$ 1,1 bilhão) emprestados para comprar o time inglês. O problema, como revelou esta semana o jornal Daily Telegraph, é que os americanos não têm como pagar a dívida e vão usar os lucros do clube nos próximos anos para pagar o empréstimo. A empresa que mantém o clube não é nada transparente. Tem sua sede no Estado americano de Delaware, mas com atividades nas Ilhas Cayman, um paraíso fiscal. O financiamento veio de dois bancos: o Royal Bank of Scotland e o Wachovia. Hoje, essas duas instituições financeiras só não fecharam as portas graças aos generosos bilhões dados pelos governos. Em juros, a estimativa é de que o clube tenha de gastar US$ 40 milhões (R$ 87 milhões) por ano para pagar pelos empréstimos, valor igual ao que o clube lucrou em 2007. Um grupo de torcedores já formou um sindicato para alertar que o clube não terá nos próximos anos como pagar sua dívida, salários dos astros, contratações e ainda construir um novo estádio.Esse projeto, de fato, acaba de ser adiado por tempo indefinido. O novo estádio do Liverpool custaria US$ 600 milhões (R$ 1,3 bilhão). O que especialistas do mercado financeiro temem é que, com dívidas enormes, os clubes não consigam mais acesso a crédito. Os times menores seriam os primeiros a sofrer. Dave Whelan, dono do Wigan Athletic, já sugeriu um teto nos salários para evitar uma crise maior.O West Ham foi abandonado pelo seu principal patrocinador, a agência de viagem XL, que faliu. O time ainda sofreu um terremoto depois que seu proprietário, o islandês Bjorgolfur Gudmundsson, viu sua fortuna desaparecer com a crise em seu banco, o Landsbanki. A direção já avisou ao técnico Zola de que ele não terá dinheiro para comprar novos jogadores em janeiro. E ainda terá de passar uma lista de dez atletas que poderiam ser vendidos para o clube arrecadar dinheiro.O problema afeta outros países. Na Itália, a Lazio simplesmente não consegue achar um patrocinador. Na Alemanha, os acordos de transmissão da Bundesliga acabam em meados de 2009 e o temor é de que o valor seja revisto para baixo. A conseqüência seria uma renda menor para todos os clubes. A Espanha - em plena crise e com 11% de desemprego - pode ver um congelamento nos recursos de empresários para o futebol. Na Uefa, a crise está tomando toda agenda do presidente Michel Platini. Ele quer debater uma forma de evitar que os clubes acumulem dívidas - e chegou a sugerir que um time fosse impedido de competir se a dívida superasse em 40% seu patrimônio. O problema é que a entidade não consegue fechar uma proposta, já que o número de clubes endividados é enorme e muitos argumentam que a solução não seria penalizar as agremiações, mas salvá-las. Arsene Wenger, técnico do Arsenal, já deixou claro temer que a crise chegue com força ao futebol. No Reino Unido, a primeira divisão é patrocinada pelo banco Barclays, que quase faliu. Os direitos de transmissão terminam em 2010. "A recessão significa que os torcedores terão menos dinheiro e, também, que as empresas de TV terão menos recursos de publicidade", afirmou Wenger na edição deste mês da revista do clube. "E isso significa que o futebol vai sofrer." Se o atual modelo de gestão não for modificado, Wenger alerta que a conta final pode acabar no colo - e nos bolsos - dos torcedores, que receberão apelos dos cartolas para salvar seus amados clubes. O TAMANHO DO ROMBOUS$ 5,2 bilhões é a dívida total dos clubes ingleses US$ 20 bilhões seria o prejuízo de Abramovich, dono do Chelsea, na bolsaR$ 1,3 bilhão custaria o novo estádio do Liverpool, mas o projeto foi engavetado

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.