Crônica de um jogador aposentado

Na porta da padaria agora tinha um segurança. Não entendi bem a razão. O bairro é relativamente tranquilo e nunca tinha ouvido falar em nenhum acontecimento que tivesse colocado a padaria em perigo. Mas lá estava o segurança, devidamente vestido de terno preto e, às vezes, usando óculos escuros. É um homem corpulento, com alguma barriga que o terno não consegue esconder. Vi que conhecia aquele cara logo na primeira vez que o notei em seu posto. Nem por um momento pensei que podia estar enganado. Era ele, um antigo craque, duas ou três vezes convocado para a seleção brasileira e que tinha jogado em vários grandes clubes. A última vez que soube dele foi quando voltou do Japão, onde atuou por alguns anos. Jogou um pouco mais e depois silêncio.

Ugo Giorgetti,

23 de janeiro de 2011 | 00h35

A única coisa que me fazia duvidar um pouco da minha certeza era que ninguém parecia tê-lo reconhecido. Conversas sobre futebol são frequentes na padaria. Nenhum dos habituais participantes das conversas, porém, parecia se dar conta de que a dois passos de distância estava um craque que tinham admirado e visto jogar inúmeras vezes. Incrível!

Fui tirar minhas poucas dúvidas com o jornaleiro, que, vizinho da padaria, sabe tudo o que se passa na região. O jornaleiro confirmou, era ele. O craque, o grande jogador. Mas, disse o jornaleiro, o homem não queria revelar sua identidade. Uma ou duas pessoas que, como eu, o reconheceram não tiveram nenhum êxito quando o abordaram. Ele simplesmente negava ser quem tinha sido. Era tratado pelo sobrenome, Soares, que podia, aliás, até ter sido inventado.

De qualquer maneira fiquei de olho nele, e o que via me assombrava. Seu trabalho consistia em não fazer absolutamente nada. Colocado na porta da padaria parado, à espera de acontecer alguma coisa que nunca acontecia, olhava os carros e as pessoas que passavam, dando, no máximo, alguns passos para cá e para lá, metido sempre no terno preto e gravata, a trinta e cinco graus centígrados de temperatura. O dia inteiro.

Perigo imaginário. E dia após dia acontecia exatamente a mesma coisa: nada. Ficava ali, protegendo a padaria de perigos imaginários, limitando-se a cumprimentar cordialmente quem entrava. Tentei verificar se tinha algum interesse nos dois aparelhos de TV que mostravam a qualquer hora algum jogo ocorrendo no mundo. Nunca o surpreendi dando ao menos uma olhada para os aparelhos. Ao contrário, fica na porta, as costas voltadas para as TVs, como se elas não existissem. Raramente vai à banca, e nunca olha as manchetes esportivas. Já abri, deliberadamente, o jornal na página de esportes bem perto dele para ver se lançava pelo menos um olhar. Nada. Ali, parado, na sua absurda função, tem um ar um pouco ausente como se parte dele não estivesse mais entre nós. Há um vazio tão grande ao seu redor que quase se pode tocar.

Cadê o dinheiro e os empresários? Eu me pergunto: onde foi parar o dinheiro, a grana? Os altos salários, os bichos, as luvas, a participação nas transferências? Onde estão? Esse cara estava jogando fazia apenas uns quinze anos! Onde estão os amigos, os empresários, os dirigentes, sempre prontos a acusar os jogadores de mercenários e interesseiros?

Enquanto tomo meu café, olho o homem que tantas vezes vi jogar. Ele também, ali parado, olha fixo para alguma coisa diante dele. Talvez onde eu só veja carros e pessoas passando na chuva, ele esteja vendo um gramado, um lindo dia de sol e ele jogando.

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