'CrossFit é feito para qualquer pessoa', diz precursor do esporte no Brasil

Modalidade busca exercitar as 10 capacidades físicas do ser humano equilibradamente

Guilherme Dorini, O Estado de S. Paulo

27 de março de 2014 | 11h49

SÃO PAULO - Condicionamento físico é saúde. Essa é a filosofia ensinada nos ginásios de CrossFit ao redor do mundo. O esporte, que já virou febre nos Estados Unidos, chegou para ficar no Brasil, pelo menos é o que garante Joel Fridman, responsável por trazer a modalidade ao País. Em entrevista ao Estado, o professor, formado em Esporte pela USP, fala sobre os benefícios da modalidade, da aceitação do público brasileiro e das competições para quem quer se tornar um profissional desse esporte.

Fridman também comentou sobre o Verão CrossFit Brasil, competição inédita realizada no litoral paulista. Entre os dias 1º e 16 de fevereiro, o evento levou ao Guarujá os homens e mulheres mais bem condicionados do País, na primeira competição brasileira de verão do esporte.

Qual a principal diferença entre uma academia normal e o CrossFit?

JOEL FRIDMAN - O CrossFit é um método de treinamento que visa a melhora do condicionamento físico. O CrossFit é uma marca, é um ginásio especializado em um tipo de treinamento de condicionamento físico. A diferença básica é o nosso conceito do que é condicionamento físico em relação a uma academia, onde você tem várias aulas oferecendo diferentes tipos de objetivos, desde aulas de ginástica localizada e treinos específicos, como boxe, ou mesmo a musculação tradicional. Aí você vai com diferentes propostas e o professor monta um treino para você atingir este objetivo. A CrossFit tem um objetivo único, que é o condicionamento físico. Nosso objetivo é fazer o ser humano trabalhar suas 10 capacidades físicas equilibradamente: força, resistência muscular, resistência cardiorrespiratória, flexibilidade, potência, velocidade, equilíbrio, coordenação, precisão e agilidade. Então diferente de uma academia normal onde você faz um ciclo de um mês de força, outro de resistência. Nosso treino muda todo dia, não tem uma fichinha para fazer uma coisa. Todos os dias vamos tentar otimizar seu corpo ao máximo para ele ficar equilibrado e não apenas só forte ou só resistente.

Nos Estados Unidos o Cross Fit já é muito popular. Como o esporte chegou ao Brasil?

JOEL FRIDMAN - A primeira CrossFit oficial foi a CrossFit Brasil, isso foi em 2009, quando existiam 1.400 CrossFit pelo mundo. Este número agora está em quase 8 mil unidades. De 2009 até 2010 éramos a única CrossFit no Brasil, apesar de muita gente já falar, já saber o que era. Nós começamos a desenvolver alguns cursos para disseminar e mostrar o que era a CrossFit. Em 2010 tinham cinco ou seis ginásios, a gente chama de ginásio para não parecer aquele negócio com máquinas. Ano passado, no começo de setembro tinham 57 e agora estamos com mais de 115 no Brasil.

E como foi esta aceitação do público?

JOEL FRIDMAN - Foi muito boa. Mas demorou para ser boa. Demorou uns três anos para o pessoal entender o que eram as coisas que nós fazíamos. Fazemos tipos de exercícios, como por exemplo levantamento de peso e sempre rolava aquele pensamento: 'levantamento de peso não faz a pessoa crescer, faz mal', mas quem conhece a educação física sabe que é ao contrário. O levantamento de peso estimula o crescimento das pessoas. Trabalhamos com o corpo, aprender a lidar com o corpo. Começamos a mostrar que tais princípios básicos da movimentação humana, como caixa no chão, uma mala para colocar em cima do armário, são princípios de coisas que você terá que fazer no dia a dia.

Qual é a expectativa de quem começa no CrossFit?

JOEL FRIDMAN - A pessoa vem buscando uma nova alternativa de treino, sem saber direito o que é CrossFit. Em geral, nossos alunos são aqueles que não aguentam mais ir na academia tradicional e fazer a boa e velha musculação. Nós na CrossFit Brasil explicamos o que é, o por que fazemos dessa maneira e quais são os princípios disso: condicionamento físico é saúde. Enquanto academia é mais estética. Depois que ele entende e incorpora esses conceitos ele começa realmente se tornar um praticante mais assíduo. Ele entende que aquilo faz bem para a vida dele, não necessariamente para estética, mas sim que isso é uma consequência do treino, e não um objetivo.

Existe algum ponto negativo do CrossFit?

JOEL FRIDMAN - Não. Teoricamente o CrossFit é feito para qualquer pessoa. Nós adaptamos o treino para qualquer pessoa. Se você chegar sem uma perna, com braço quebrado, com uma lesão... Para nós não interessa, porque esse é o corpo que você vai ter no dia a dia. Não interessa te ensinar a trabalhar com segmentação corporal, isolamento muscular, se isso não for te ajudar na sua rotina. Uma das partes negativas, como em qualquer outra atividade física, é um professor mal-intencionado, sem experiência, não competente. Isso em todo lugar acontece, desde o técnico de futebol até um 'crossfiteiro'. O aluno tem que conhecer o professor.

E sobre os profissionais que disputam campeonato?

JOEL FRIDMAN - CrossFit começou como treinamento, e não campeonato. A intenção sempre foi a melhora de qualidade de vida. Por brincadeira, por diversão, o pessoal começou a se juntar e tentar fazer um 'campeonatinho'. Isso foi crescendo e tomando proporções muito grandes. Hoje existe mais de 200 mil pessoas no mundo querendo uma vaga para o Mundial. Mas, como em qualquer esporte, para ser profissional o cara tem que nascer para aquilo e treinar para aquilo. Não é qualquer um que chega lá e fala 'eu vou ser o melhor atleta do mundo'. Os atletas de ponta são 2% a 3% dos nossos alunos tradicionais. Existe a competição mundial que é chamada CrossFit Games, que é organizada pela marca CrossFit nos Estados Unidos e existem alguns campeonato locais. O que nós fazemos no Brasil é como se fosse um mini mundo do CrossFit Games. É equivalente a um campeonato brasileiro e que esse ano teremos seletivas para o torneio. Esse ano também começamos com o CrossFit Verão, uma proposta inédita e totalmente diferente do que temos no mercado, principalmente na América Latina. A ideia era sair do ginãsio, sair das quatro paredes e mostrar que o CrossFit pode ser feito em qualquer espaço e ambiente.

Brasileiros já conseguem viver de CrossFit?

JOEL FRIDMAN - Os atletas brasileiros ainda não tem um nível para o campeonato mundial, estamos crescendo ainda. Lá fora o pessoal já vive disso, com patrocínios muito fortes do mundo da CrossFit e até mesmo de marcas paralelas. Mas no Brasil ainda não acontece isso tão forte, mas a maioria dos atletas são professores, então de um jeito ou de outro eles acabam vivendo de CrossFit, mas não necessáriamente de competição. Existem marcas muito segmentadas nesse mercado, fazem materiais expecíficos, suplementos e até mesmo roupas para o esporte. Outras marcas esportivas já estão entrando, como é o caso da Reebok, que é o patrocinador oficial do CrossFit Games.

Como foi o evento realizado no Guarujá?

JOEL FRIDMAN - Foi bem legal para sair do tradicional, do básico que a gente conhecia. Tentamos fazer menos coisas com cara de ginásio, usamos estruturas como troncos de madeira, puxar trenós na areia com peso, natação no mar. Foi legal que conseguimos lidar com o inesperado: a natureza. Choveu muito, uma ressaca que não tinha há anos, a maré subiu, nós não usamos metade do que a gente queria fazer, mas foi legal para comprovar o negócio da CrossFit: treinamos para o inesperado e o desconhecido. Então não interessa quais eram as provas, os atletas toparam e falavam: "treinamos para entrentar qualquer coisa". Então improvisamos provas novas, saímos da areia e fomos para o calçadão e 99% dos atletas não reclamaram nada sobre isso. Foi legal para ver que o CrossFit prepara as pessoas para o que der e vier.

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