Cruzeiro recebe punição inédita por homofobia

Clube foi multado pelo STJD em R$ 50 mil por ofensas da torcida contra Michael, consideradas[br]discriminatórias

Sílvio Barsetti / RIO, O Estado de S.Paulo

14 de abril de 2011 | 00h00

Pela primeira vez na história do País, a Justiça Desportiva impôs uma condenação por "ato de homofobia". O punido, no caso, foi o Sada/Cruzeiro, por causa das hostilidades de seus torcedores contra o atleta Michael, do Vôlei Futuro, em partida pela fase semifinal da Superliga Masculina de Vôlei, disputada no dia 2 de abril, em Contagem (MG). O clube foi multado em R$ 50 mil. "Houve uma manifestação homofóbica, com constrangimento e humilhação para o atleta", enfatizou o relator do processo, Luiz Tavares Correa Meyer, durante a defesa de seu voto.

O julgamento da Comissão Disciplinar do Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) reuniu muitas pessoas no fim da manhã de ontem no auditório do prédio da Confederação Brasileira de Vôlei (CBV). A condenação foi decidida por unanimidade pelos quatro auditores . "Estamos dando um recado para clubes e torcedores. Não há mais espaço no esporte para preconceitos de qualquer natureza", disse Renata Mansur Bacelar, uma das julgadoras.

Na primeira partida da fase semifinal da Superliga, o meio de rede foi hostilizado em coro, várias vezes, por torcedores do Cruzeiro, numa referência à sua orientação sexual. No confronto seguinte, sábado passado, em Araçatuba, Michael recebeu homenagem dos colegas do Vôlei Futuro e do público. "Recebi a denúncia com tristeza. É difícil ver, em 2011, atitudes como esta em um país que vai receber a Copa do Mundo e a Olimpíada em alguns anos", declarou o procurador do STJD, Fábio Lira.

Último a justificar seu voto, o presidente da comissão disciplinar, Wanderley Rebello, citou a Constituição para justificar a pena. "Foi uma cena que violou a dignidade humana e isso não poderia ficar impune." Ele questionou o advogado do clube mineiro, Henrique Saliba, sobre atitudes de prevenção e repressão que o Cruzeiro deixara de fazer para evitar a agressão. "Poderia ter usado o microfone do ginásio para pedir que a torcida não fizesse aquilo ou mesmo identificar quem liderava a manifestação."

Henrique Saliba garantiu que para o jogo de amanhã, entre as duas equipes, em Contagem - partida que vai definir o finalistas da Superliga -, algumas medidas vão ser tomadas a fim de impedir os fatos de 2 de abril. "Vão ser distribuídas cartilhas para a torcida e colocadas faixas no ginásio pedindo que o público incentive o time da casa, sem ofensas ao adversário."

A advogada do Vôlei Futuro, Miriam Cristina Simões, esperava mais rigor do STJD no caso. Ela defendia perda de pontos ou de mando de quadra do clube mineiro por causa do incidente. "A denúncia da procuradoria do tribunal ao Cruzeiro se baseou num artigo cuja pena máxima era a multa. Tinha de ser mais contundente. Sofremos, a equipe toda, com a agressão homofóbica ao nosso atleta. A discriminação ao Michael foi absurda, não saio daqui satisfeita."

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