Curvas opostas

China, ameaça aos EUA também na economia

Jamil Chade, Genebra, O Estadao de S.Paulo

25 de abril de 2008 | 00h00

China e Estados Unidos deverão disputar medalha a medalha a liderança geral na Olimpíada. A competição nas quadras, nos campos e nas piscinas é apenas mais uma que envolve duas grandes potências da atualidade. A ameaça vermelha aos norte-americanos não se restringe à área esportiva. Ao contrário. Na economia, os gigantes chineses não param de crescer e caminham para o primeiro lugar, algo impossível de se pensar alguns anos atrás.Com 900 milhões de pobres, Pequim ainda terá muito trabalho e desafios para superar a renda média dos americanos. Mas em muitos setores os chineses já desbancaram os EUA e conquistaram a liderança. Dados de consultorias, da ONU e do próprio governo americano indicam que a capital chinesa tem tudo para ser uma superpotência em pouco tempo.A China, por exemplo, já tem mais internautas do que os EUA, mais celulares e já exporta mais que as tradicionais empresas americanas. Até mesmo a CIA olha com atenção aos eventos na China. Uma pesquisa do Conselho Nacional de Inteligência dos EUA deixou claro que há o claro risco de que, em 2020, o centro de gravidade da economia mundial esteja na Ásia, em grande parte graças à China. Nos últimos 25 anos, a taxa média anual de crescimento da economia chinesa foi de 8%, contra 3% nos EUA. Só em 2007 o crescimento da economia chinesa foi de 11% e, desde os anos 80, 200 milhões de pessoas teriam saído da condição de pobreza.O que distancia os dois países ainda - e favorece os americanos - é o tamanho do PIB. A economia dos EUA somaria US$ 11 trilhões, contra apenas US$ 2 trilhões da China. Mesmo assim, os chineses já têm a quarta maior economia do mundo e os dados de vários setores apontam verdadeiras revoluções.Em ciências, por exemplo, a China já forma o dobro de engenheiros que os americanos por ano. Reflexo de uma política industrial com incentivo suficiente à pesquisa, a China vem subindo no ranking dos países que mais registram marcas e patentes. O relatório anual da Organização Mundial de Propriedade Industrial (OMPI) destaca que o país já o quinto maior local de registros de patentes do mundo, com alta de 557% em apenas um ano. Em telecomunicações,conta com 461 milhões de usuários de celulares, contra 233 milhões nos Estados Unidos.DOMÍNIO DOS BRINQUEDOSPapai Noel também se mudou do Pólo Norte para a China - 3 mil empresas fabricam 70% dos brinquedos que hoje estão nas mãos das crianças em todo o mundo. A Organização Mundial do Comércio (OMC) aponta que já existe a possibilidade de que Pequim se torne o maior exportador do mundo até o fim do ano. Desde 2006 os chineses já superaram os americanos. Em agosto do ano passado, alcançaram a liderança superando os alemães. Mas acabaram perdendo a posição e voltando à segunda colocação, com vendas de US$ 1,2 trilhão. Se as exportações de Hong Kong forem somadas, porém, a China já seria hoje a maior potência exportadora do planeta.A renda da população também vem aumentando e o país faz seus primeiros ricos comunistas. Prova disso é que cerca de mil novos veículos ganham as ruas de Pequim por dia. Mas a diferença social entre os cidadãos também cresce, algo que preocupa o governo comunista de Pequim. Em 25 anos, o Banco Mundial estima que a desigualdade social na China dobrou.IMAGENS OPOSTASAo contrário do país asiático, os EUA sofrem com profunda crise, provocada sobretudo pelos problemas no setor imobiliário. ''A China e os EUA são financeiramente como duas imagens opostas em um espelho'', afirma Jan Friederich, economista sênior da Economist Intelligence Unit.O déficit nas contas correntes americanas chega a 6% do PIB. E curiosamente está sendo financiado em parte pela própria China com suas reservas. ''Pela primeira vez na história a Bolsa de Xangai tem o poder de afetar Wall Street. As duas economias estão mais ligadas do que nunca'', diz o professor Xiang Lanxin, do Instituto de Altos Estudos Internacionais de Genebra e especialista em mercados asiáticos.De acordo com economistas e sociólogos, a realização dos Jogos Olímpicos ocorrem em um momento crucial na história da China. O país, segundo estudos, estaria em um momento de redefinição de seu papel no mundo e o evento não seria disperdiçado por Pequim para mostrar a nova China, apesar das críticas contra violações aos direitos humanos.MAIOR DO PLANETAResta saber, ressaltam historiadores da London School of Economics, se a China vai conseguir superar seus problemas políticos e sociais para voltar a ser a maior economia do mundo neste século. De acordo com a universidade britânica, essa não seria a primeira vez na historia que isso ocorreria. As estimativas dos acadêmicos são de que, entre o ano mil e 1.600, a China dominou a economia do planeta, período em que os EUA ainda não existiam.EXPLOSÃO VERMELHA8% é a taxa de crescimento médio anual da economia da China nos últimos 25 anos. Só em 2007, esse número foi de 11%3% é a taxa de crescimentomédio anual da economia norte-americana nos últimos 25 anos3 mil empresaschinesas fabricam 70% dos brinquedos de todo o mundo. O país passou os Estados Unidos em 2006 e é o 2º maior exportador, atrás apenas da Alemanha

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