Custo x benefício

Mais uma vez, com a abertura da janela de transferências no futebol europeu, os principais clubes brasileiros se estapeiam para ver quem será capaz de repatriar grandes nomes do futebol. Eu disse grandes nomes, em vez de grandes jogadores ou grandes craques, e é claro que isso não foi por acaso. Sim, porque como todos nós sabemos - inclusive os dirigentes que lutam para trazer atletas famosos de volta ao Brasil -, esses grandes nomes despertam a atenção da mídia muito mais pelo que fizeram no passado do que pelo que vêm rendendo dentro de campo nas últimas temporadas.

MARCOS CAETANO, O Estado de S.Paulo

08 de janeiro de 2011 | 00h00

Dois casos famosos de repatriação servem de exemplo para os cartolas que acham que resolverão os problemas de seus clubes com a contratação de uma celebridade esportiva. Três, na verdade, já que um dos repatriados viveu a experiência duas vezes. Estou falando de Adriano, que teve passagens de sucesso pelo São Paulo e pelo Flamengo, e de Ronaldo, que brilhou em sua primeira temporada no Corinthians.

Atuando pelo Tricolor paulista, Adriano fez vários gols e, embora tenha fracassado na Libertadores de 2008, deixou boa impressão ao longo de sua rápida passagem. Na temporada seguinte, jogando pelo Flamengo (depois de um fugaz pit stop na Europa), o Imperador conquistou nada menos do que o título brasileiro. Já Ronaldo, que no ano passado voltou a brigar com o peso e com as contusões, em 2009 deu ao Corinthians um Campeonato Paulista e a Copa do Brasil, em meio a algumas jogadas dignas de antologia.

O que esses dirigentes que sonham alto para contratar grandes nomes para os seus clubes deveriam levar em conta é algo absolutamente básico na avaliação de qualquer investimento: a relação custo x benefício será boa? E mais: haveria outra opção capaz de trazer mais retorno para o clube? Infelizmente, a mentalidade de curto prazo predominante no futebol brasileiro sufoca qualquer tentativa de se fazer avaliações mais profundas e com visão de futuro. Por exemplo: o que seria melhor para um time de futebol num horizonte de dez anos? Contratar Ronaldinho Gaúcho ou construir um centro de treinamento moderno para beneficiar todo o plantel? Contratar Ronaldinho Gaúcho ou investir pesado nas categorias de base, que revelarão vários craques para as futuras temporadas? Não venham me dizer que dá para fazer tudo de uma vez só, pois os clubes brasileiros não têm recursos para investir em jogadores caríssimos, em um bom plantel de apoio, na estrutura técnica e ainda nas divisões de base. E assim, como não dá para fazer tudo, os cartolas acabam raciocinando parecido com os políticos. Investir em saneamento e educação é melhor para o país, mas construir pontes e estradas é mais visível e rende mais votos. Então, tome ponte e tome estrada! Eu não tenho dúvidas de que investir na base, como fazem Internacional e Santos, é melhor a longo prazo. Da mesma forma, estou seguro de que um CT de nível, como o do São Paulo ou o do Cruzeiro, será melhor para os nossos times na próxima década. Mas trazer o Ronaldinho Gaúcho vende mais camisas, gera mais exposição para o patrocinador, para os dirigentes e, de acordo com o raciocínio simplista vigente, essa opção - que além de tudo é bem menos trabalhosa - é quase sempre a preferida.

O problema dos cartolas tupiniquins é que eles raciocinam como se comandassem grandes clubes europeus e não deficitárias instituições nacionais.

Em países desenvolvidos, os estádios são lindos e seguros, os ingressos são caros, as cotas de televisão astronômicas e os patrocínios idem. Lá é possível, e não sei por quanto tempo, um modelo de comprar craques prontos. Nós, temos que desenvolvê-los e vendê-los continuamente, apostando, muito eventualmente, em segurar um ídolo por um período maior, como o Santos fez com Neymar. Na próxima década, os clubes de maior sucesso serão aqueles que investirem mais em estrutura e menos em celebridades. É pagar - ou investir - para ver.

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