Informação para você ler, ouvir, assistir, dialogar e compartilhar!
Estadão Digital
Apenas R$99,90/ano
APENAS R$99,90/ANO APROVEITE

Da boca pra fora

Virou moda mostrar-se defensor do jogo bonito. É de bom tom elogiar equipes ofensivas. Até se redescobriu que o gol é a essência do futebol, ora pois. O sonho recorrente do cidadão comum e dos críticos é que brotem filhotes de Barcelona e que floresçam Messis, Neymares (plural danado esse) e Cristianos Ronaldos. Discurso perfeito, moderninho. Na prática, se prefere o 1 a 0 modorrento, a vitória enfim, mesmo que feia. O prazer e o belo valem só da boca pra fora. Pena.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

27 de fevereiro de 2012 | 03h01

O clássico que Palmeiras e São Paulo fizeram em Presidente Prudente corrobora a ruptura entre teoria e prática. Apesar do calor impiedoso, de torrar cartola, os dois times construíram partida interessante, movimentada, com chances de gol e sobretudo com bola na rede. O placar de 3 a 3 deu a medida exata da emoção, que prevaleceu do começo ao fim. A turma de Felipão sempre a ficar em vantagem e a moçada de Emerson Leão a tirar a diferença.

Pela grana que desembolsou, o público no Prudentão não se sentiu lesado com o espetáculo que lhe entregaram. O torcedor que foi ao campo para divertir-se deve ter voltado feliz para casa. E não deu sono pra quem ficou no sofá a acompanhar pela televisão, entre a macarronada e o Faustão, duas instituições das tardes de domingo. Será? Desconfio, por algumas reações que vi, que não tenha sido bem assim.

Pois não é que se criticou a postura das defesas, sobretudo a do São Paulo? Ouvi e li (me meto a circular pelas "mídias sociais" para saber o que pessoal pensa) que não tem cabimento a zaga tricolor tomar seis gols em dois jogos seguidos, que há muito espaço no meio-campo, que o sistema não funciona e daí por diante. Um desastre ter 14 gols contra em dez rodadas do campeonato, mesmo que o ataque tenha 23 e seja dos mais eficientes, atrás apenas do Santos.

Toma-se, então, o Corinthians como parâmetro. O líder invicto tem 13 gols a favor e só tomou 3. A sucessão de 1 a 0, que se tornou marca alvinegra desde o Brasileiro de 2011, denota equilíbrio, segurança, eficiência, consistência. Numa palavra, sustentabilidade, para ficar em linguagem tão cara ao Tite. O campeão nacional tem méritos, é evidente, e alegra seus torcedores, que não estão em jejum de títulos. Mas, ao ser alçado como modelo e referência, põe a pique o discurso hipócrita dos que só na aparência se inflamam com o "jogo bonito".

Os 3 a 3 construídos por palestrinos e são-paulinos num tempo que começa a ficar remoto seriam celebrados como festa. Em vez disso, numa época como a de agora, em que resultados, metas, objetivos, bônus contam mais do que deleite, aqueles seis gols não passam de prova de fragilidade!

A bela cobrança de falta de Daniel Carvalho, na abertura do placar, o golaço de Barcos nos 2 a 1, o chute certeiro de Fernandinho para fechar a conta, as arrancadas dos dois lados ficam em segundo plano. Como somos pragmáticos, lamentamos que times sofram tantos gols. O Santos do auge da história centenária fazia gols de montão e leva outros tantos, assim como a Academia palmeirense dos anos 1960. Mas isso é saudosismo, vivemos uma era de praticidade - olha o Titês de novo em ação.

O amigo pode lembrar que o ideal seria marcar muito e levar poucos, como o Barcelona. Mas, como Barça só tem um, me contento com jogos em que os times fazem e tomam muitos gols. Pra mim, é melhor do que 1 a 0. Sem contar que, com oito vagas disponíveis para a fase seguinte, Palmeiras e São Paulo não ficarão fora e no mínimo alegraram pra chuchu o domingo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.