Alexander Hassenstein/AFP
Alexander Hassenstein/AFP

Da guerra para a batalha olímpica

Depois de passar por uma infância difícil no Afeganistão, atleta se prepara para competir no atletismo em Londres

Adriana Carranca, Enviada especial / Londres, O Estado de S.Paulo

28 de julho de 2012 | 03h06

LONDRES - A lembrança mais forte que a corredora Tahmina Kohistani guarda da infância é do medo de atravessar os campos minados de Kapisa, no Afeganistão, para buscar comida. Quando nasceu, em 1989, as tropas soviéticas tinham se retirado do país, mas deixaram para trás 10 milhões de explosivos escondidos em solo afegão e prestes a serem detonados, um passo de cada vez.

Aos 23 anos, ela quer deixar a sombra da guerra para trás quando seus passos, agora firmes, atravessarem a pista de atletismo do Parque Olímpico de Londres. "Gostaria de mostrar ao mundo que meu país não é somente um lugar de terrorismo e conflitos e poder inspirar outros jovens como eu", disse a atelta ao Estado.

O Afeganistão terá 6 atletas nessa Olimpíada. Entre eles, Rohullah Nikpai, bronze no tae-kwon-do em Pequim, em 2008. Foi a primeira medalha olímpica da história do Afeganistão. Ele é a grande esperança do país deixado à margem do esporte internacional por mais de três décadas de guerras que devastaram gerações, destruíram a infraestrutura e impediram o desenvolvimento. Outra aposta é o judoca Ajmal Faizada, de 23 anos, oito vezes campeão nacional.

Tahmina é a única mulher. Ela sobreviveu à guerra civil e enfrentou o subsequente regime dos radicais islâmicos do Talibã (1996-2001), durante o qual o Afeganistão foi banido dos Jogos pelo Comitê Olímpico Internacional por discriminar as mulheres. Elas eram executadas em público por acusações como adultério no Estádio Ghazi, na capital, o mesmo onde Tahmina agora treina, ao lado de equipes femininas de atletismo, boxe, futebol. A discriminação ainda existe. Dias antes de viajar para Londres, ela foi deixada na rua por um taxista quando ele soube que era uma atleta; ameaças por telefone são constantes. "Cada dia é uma batalha", diz.

Além do Afeganistão, atletas da República Democrática do Congo, Iraque, Síria e Sudão disputam os Jogos. Para eles, a superação não está em vencer, mas no caminho traçado até Londres.

Zamzam Farah Mohamed, que correrá os 400 metros pela Somália, teve de treinar entre as paredes marcadas com tiros de um velho e semidestruído ginásio de Mogadiscio, porque os extremistas do Al-Shabab ameaçavam matá-la. "É um grande orgulho para mim chegar até aqui e poder representar meu país, meu povo em Londres. Espero estar entre as primeiras", disse ao desembarcar sorridente no Aeroporto Internacional de Heathrow, recebida como heroína por conterrâneos.

A Somália não tem governo há mais de 20 anos. Em agosto, os milicianos do Al-shabab, ligado à Al-Qaeda, foram expulsos da capital pelas forças da União Africana, mas a violência continuou com os constantes ataques à bomba. Em abril, o chefe do Comitê Olímpico da Somália, Aden Yabarow Wiish, foi morto em um atentado. "Nossa participação é mais do que vencer medalhas, mas mostrar ao mundo que nosso país tem mais do que guerra e fome", disse Mohamed Mohamed. Ele participa dos 1.500 metros.

Os dois atletas garantiram a vaga com wild cards (convites). Em Mogadíscio, eles vivem de forma precária, em casebres de pau a pique sem água encanada ou eletricidade - Zamzam dorme em uma improvisada barraca de lona. Treinam em condições impensáveis para a maioria dos atletas do mundo desenvolvido. Muhammad Zahir Aghbar, chefe do Comitê Olímpico do Afeganistão, contrabandeava material esportivo junto com armas durante a guerra civil, numa luta para manter vivo o esporte no país.

Os atletas que vêm da guerra têm de lidar ainda com o psicológico afetado pela violência. Dez sírios participação dos Jogos, enquanto em casa o conflito civil se agrava. Assim como na República Democrática do Congo, onde rebeldes ganham território e ameaçam as famílias dos oito esportistas em Londres. Durante os treinos na Vila Olímpica, a equipe do Iraque, também com oito atletas, teve de lidar no último domingo com a notícia de ataques simultâneos à bomba que mataram mais de 100 pessoas em seu país, no dia mais sangrento em dois anos.

Pelo menos nesses dias, eles tentarão esquecer os conflitos. Mais do que isso, Tahmina espera que as memórias dessa Olimpíada deem lugar às da guerra em sua infância. "Esse é o melhor momento de nossas vidas".

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