Da necessidade de saber perder

Não morro de simpatia pela famosa Libertadores, mas admito que uma coisa esse torneio tem de bom: em geral o time que você torce apanha de outro que está bem longe. É uma grande vantagem. Não são muitos os combates em que um time brasileiro tem que se medir com outro brasileiro. Em geral o time apanha da LDU, Once Caldas e sabe mais qual time, de nome estranho e separado convenientemente de nós por longas viagens aéreas. Quem conhece tantos equatorianos assim que poderiam tripudiar porque nosso time foi ridiculamente derrotado por eles? Quem conhece colombianos que logo de manhã nos podem dirigir um sorrisinho maroto que diz tudo sobre o que aconteceu na noite anterior? Estamos, num certo sentido, salvos pela distância. Além do que, com esses times não conseguimos estabelecer rivalidade alguma. São apenas jogos esporádicos que se dão com espaços de eras entre um e outro.

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

08 de maio de 2011 | 00h00

Perder, portanto, acaba sendo uma experiência indolor que não deixa cicatrizes. Não estou diminuindo o pesar de torcedores de diversos times que, na quarta-feira acabaram eliminados da Libertadores. E sei que algumas derrotas não são mais que velhas assombrações que voltam. O Peñarol, por exemplo. É verdade que o Peñarol dos últimos anos dava pena, mas camisa é camisa e, de repente, ressurge em plena Porto Alegre o time que já fez tremer brasileiros e argentinos. Quem acabou pagando por esse surpreendente renascimento foi o Internacional. Por uma noite tivemos aquele time temível redivivo, e diante de infinitas camisetas vermelhas, venceu a camiseta amarela e preta, na sua quase sinistra combinação de cores.

Mas nesse caso também a distância, embora menor, diminui a dor. Essa é das grandes vantagens desse torneio que virou obsessão de todos: ninguém conhece bem os adversários e fica mais fácil perder. Enfim, o que quero dizer é que entre times brasileiros a coisa muda.

Perder aqui é duro. Não estou nem falando de perder para um time da mesma cidade. Não falo nem do desprazer de abrir a janela no dia seguinte à derrota e, na sacada do prédio em frente, dar de cara com uma bandeira do time rival estrategicamente pendurada. Não menciono sequer o vizinho que bate os pés no chão, fazendo estremecer todo o andar quando seu time faz um gol contra o meu. Alguém que gargalha pode ser um insulto. Todos se conhecem, ganhadores e perdedores. Jornaleiros, taxistas, guardas de transito, todos podem avaliar claramente o peso da vitória ou da derrota. Por isso é preciso saber perder. Não no sentido que se dá a essa expressão, mas saber perder, isto é, escolher de quem se vai perder. O Palmeiras, por exemplo, time que está se acostumando a perder, precisa urgentemente, em respeito à sua torcida que ainda é grande, adotar esse método. Sei que é difícil, sei que para um clube com as tradições do Palmeiras é decisão amarga, mas alguém precisa fazer alguma coisa. Quinta, com direito a olé ainda no primeiro tempo, o time foi a nocaute, não diante de um forasteiro, mas do nosso vizinho Coritiba. Conhecemos todos muito bem a biografia dos dois times, sabemos o que eles são e o que foram no futebol, sabemos até o nome de alguns jogadores do presente e, principalmente, do passado.

Podemos, então, pesar clara e objetivamente o valor da vitória e a tragédia da derrota. Não se trata de um jogo com um time afastado no continente, com camisas que apenas vimos uma ou duas vezes. Não, um jogo entre brasileiros traz consigo toda uma história dos times. Por isso transcrevo uma opinião que ouvi de alguns palmeirenses fervorosos, mas que não perderam inteiramente o senso de ironia: a equipes na situação do Palmeiras resta talvez selecionar derrotas. Esforçar-se terrivelmente para entrar de qualquer maneira numa competição internacional, a Sul-Americana, por exemplo. Não para ganhar, sabemos quanto isso é sonho desvairado, mas para pelo menos ir apanhar bem longe.

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