divulgação/ Miami Dolphins
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Da vida na fazenda ao sonho da NFL: a trajetória do brasileiro Duzão

Durval Queiroz, de 1,94m de altura e 150 quilos, supera dificuldades para chegar à elite do futebol americano

Catharina Obeid e Renan Fernandes, O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2019 | 04h30

O Brasil descobriu a NFL. Depois de Cairo Santos, é a vez de Durval Queiroz escrever sua história na maior liga de futebol americano. Duzão, como é conhecido, pode alcançar dois feitos inéditos: o de único atleta do País que já jogou o Campeonato Brasileiro de Futebol Americano a integrar uma equipe da NFL, o Miami Dolphins, além de ser pioneiro no Brasil a disputar uma posição de linha, sem ser a de kicker (chutador). Duzão é um defensive tackle, aqueles jogadores que ficam no centro da linha defensiva do time e buscam parar o quarterback adversário e impedir suas corridas pelo meio. Seria responsável em marcar, por exemplo, Tom Brady.

Indicado por Ken Joshen, técnico principal do Cuiabá e único olheiro da NFL habilitado para atuar no futebol americano no Brasil, Duzão teve seu primeiro contato com a liga graças ao NFL Undiscovered. Criado para encontrar e lapidar atletas fora dos EUA, o programa, que selecionou quatro jogadores, contou com outros seis estrangeiros neste ano. Duzão, com seu corpanzil de 1,94 m de altura e 150 quilos, foi um deles. Ele percorreu um caminho longo até assinar contrato de três temporadas no valor de US$ 1,7 milhão, cerca de R$ 6,7 milhões.

Nascido em Cuiabá e criado em uma fazenda em Diamantino, Mato Grosso, o filho mais velho de dois irmãos não planejava jogar futebol americano até entrar na faculdade. Seus planos eram outros. Por crescer andando a cavalo e mexendo com gado, ele se formaria engenheiro agrônomo e voltaria para casa a fim de ajudar a família de pecuaristas. “Esse sempre foi meu plano, desde quando fui para o colégio agrícola, aos 14 anos. Me formaria para ajudar meu pai na nossa fazenda”, contou Duzão ao Estado.

Antes de chegar ao futebol americano, ele fez carreira em outro esporte. Dos 4 aos 19 anos, praticou judô. Só depois de ser algumas vezes campeão brasileiro o mato-grossense se redescobriu longe dos tatames. Além das medalhas, levou consigo ensinamentos que se tornaram importantes no novo esporte. “Muitos dos olheiros da NFL e meus treinadores falam que foi o judô que me deixou mais ágil em campo. Minha base e meu equilíbrio influenciam muito na minha posição.”

Quando se mudou para Tangará da Serra para estudar, amigos o apresentaram à bola oval e definiram sua função, a mesma que o levou aos EUA. “Eles só disseram: ‘Duzão, você precisa parar o cara que estiver com a bola’”. Foi assim. Amor à primeira vista. Ele se transferiu de faculdade em busca de uma melhor estrutura para se desenvolver. Ali, seu sonho já não era mais aprender a pilotar um avião ou viver na fazenda. “Queria me destacar e defender a seleção. Em um ano, fui convocado. Em 2017, fui escalado para fazer meu primeiro jogo.”

Foi neste mesmo ano que a NFL começou a abrir as portas para estrangeiros. Após duas temporadas, o brasileiro resolveu arriscar nos testes do dia 1.º de abril. Após uma série de treinos, ele caiu nas graças do Miami Dolphins, um time médio dos EUA. “O que eles me falam foi que um cara do meu tamanho não poderia se mover como eu me movo”, resumiu.

Comparado aos atletas das universidades americanas e da sua posição, Duzão foi o melhor no 3 Cone Drill (corrida entre cones), o terceiro mais rápido no tiro de 40 jardas (36,5 m) e o 12.º no salto vertical e em distância. O próximo passo é focar na parte técnica e mostrar que tem condições de fazer parte do elenco de 53 atletas para a temporada. Os nomes que formarão o grupo serão divulgados dia 31 de agosto. Caso não seja selecionado, ele tem vaga garantida nos próximos anos para continuar seu desenvolvimento na NFL. “Se treinar duro, vou ficar no time principal.”

10 perguntas para Durval Queiroz, jogador de futebol americano

1) Você se formou como engenheiro agrônomo. Qual era seu sonho? Essa escolha faz parte dos negócios da família?

Me formei como engenheiro agrônomo e sou técnico agrícola também. Sempre foi meu plano e da minha família, desde quando eu fui para o colégio agrícola, aos 14. Eu ia me formar e voltar para casa para ajudar meu pai na fazenda. Essa era nossa meta até eu conhecer o futebol americano. Nasci em Cuiabá, capital do Mato Grosso, mas eu sempre morei na fazenda, em Diamantina. Minha infância sempre foi andando de cavalo, mexendo com gado. Meu único sonho, além de ajudar minha família, era ser piloto de avião. Não queria ser piloto comercial, mas queria saber como pilotar.

2) Quais os benefícios do judô nessa sua trajetória no futebol americano? Como você os aplica na posição de defensive tackle?

A vida inteira eu lutei judô, dos 4 aos 19 anos. Ganhei vários campeonatos brasileiros e um ou dois sul-americanos, mas não tenho muitas recordações porque não tinha câmeras ou essas coisas. A única coisa que tenho dessa época são as medalhas. Nos Estados Unidos eles têm o wrestling, semelhante à luta greco-romana. Muitos atletas que disputam essa luta e depois migram para o futebol americano são diferenciados. No meu caso, que é atípico, foi o judô. Muitos dos olheiros da NFL e meus treinadores falam que foi o judô que me deixou mais ágil. Minha base, meu equilíbrio influencia muito na minha posição, que acaba 'batendo' caras muito mais pesados que eu. Tenho que ter uma base muito boa porque eles querem passar por cima de mim e se eu não tiver equilíbrio não consigo me destacar.

3) De onde surgiu a vontade (ou seria oportunidade) de jogar futebol americano?

Meu primeiro contato com o esporte foi quando me mudei para Tangará da Serra para fazer a faculdade de agronomia. Eu já havia parado o judô e estava sem praticar qualquer atividade física. Aí meus amigos me encontraram na rua, falaram que a cidade tinha um time de futebol americano e que precisavam de um cara do meu tamanho. Cheguei de chinelo, não tinha equipamento, não tinha instrução nenhuma. Eles só separaram os times em dois e falaram: 'Duzão, você precisa parar o cara que estiver com a bola'. Na primeira jogada eu já dei uma pancada no cara e me apaixonei pelo esporte. 

4) O que diria para um jovem jogador que sonha em chegar à NFL?

Eu diria para um jovem no Brasil ter um sonho. Não adianta criar um sonho por causa de mim. Muitos argumentam que não têm dinheiro para ir para o colegial e para o universitário nos EUA: 'Eu sou uma prova que vocês não precisam vir'. Eu nunca tive dinheiro para jogar 'a base' nos EUA e olha o que aconteceu. Então, não importa onde você estiver, qual seja o seu sonho. Isso vale para futebol, basquete. vôlei... Se você trabalhar duro e ter fé, as coisas acontecem. Eu sou uma prova viva do que Deus pode fazer na sua vida. Ele tem um plano para todo mundo. Eu estava no Brasil, na mesma situação de qualquer outro jogador sem equipamento, campo, tendo que viajar muitas horas de ônibus para jogar, tendo que pedir dinheiro para os pais para viajar e estou aqui. Se eu consegui fazer, por que vocês não conseguiriam?

5) Qual a sua real chance de ficar no elenco final dos Dolphins?

Em todas conversas que tive com os membros da comissão técnica e com o treinador eles disseram: 'Nós estamos te dando uma oportunidade. Se você se dedicar, tem todos os requisitos para se desenvolver'. Então, se eu treinar duro vou estar no time principal depois do período de treinos, com certeza.

6) Quais aspectos (físicos ou técnicos) que mais elogiaram no seu jogo nos EUA? E o ponto fraco?

O que eles falam, e eu provei no combine (testes), é que um cara do meu tamanho não deveria se mover como eu me movo. Eles gostam da minha agilidade, da velocidade que tenho e da explosão. Nós temos outros caras no time com meu peso, mas eles não são tão flexíveis e é isso o que eles mais gostam em mim. E eu vou ter a capacidade de aprender a parte técnica, que eu não sei ainda.

7) O que tem sido mais difícil para sua adaptação neste primeiro momento?

Aqui tem outra estrutura. A NFL é a maior liga esportiva do mundo, mais até que o futebol na Europa, NBA, MLB. Para mim, o profissionalismo foi o mais me chocou. Eu saí de Cuiabá, onde não tínhamos campo e há dois anos usávamos a mesma chuteira, a mesma luva. Aqui você chega e tem 200 ou 300 funcionários só para atender os jogadores. São 6h da manhã ou 19h e tem reunião para tudo, treinos de fisioterapia, palestras. Tudo é muito profissional. O que eles exigem de preparo físico para jogar neste nível é muito pesado. Mas nada que eu não consiga fazer com o passar dos dias. No Brasil, não tínhamos equipamento e aqui eles usaram um scanner para fazer um capacete especial para mim. Fizeram o mesmo com meu pé, para uma chuteira. Sem falar que você escolhe todo tipo de equipamento que quiser, é um absurdo.

8) Quanto o NFL Undiscovered foi importante para você chegar ao Dolphins?

Sem o NFL Undiscovered eu não teria conseguido realizar esse sonho. Lembro que quando comecei a treinar mais firme para chegar na seleção brasileira e conheci o Ken Joshen. Ele falou que eu tinha capacidade para jogar na NFL e eu respondi: 'Não tenho cara. Eu sou mais lento, nunca joguei high school (ensino médio) ou college (universitário) nos Estados Unidos'. Essa era a realidade, se você não teve essa formação lá você não entra na NFL. Esse programa, com o aval da NFL, mudou as coisas. A própria NFL pega os jogadores ao redor do mundo e coloca o nome deles chancelando que esses 'escolhidos' têm capacidade de jogar. Se não tivesse acontecido isso, seria impossível. Eles me deram oportunidade.

9) Como foi o primeiro contato com a franquia? O que eles esperam de você?

O primeiro contato com a franquia foi muito emocionante. No sábado, eu já havia recebido a notícia de que estava entre os quatro selecionados (dos sete participantes do programa NFL Undiscovered), mas eles falaram que não era para divulgar nada e na segunda-feira mandariam uma equipe de filmagem para gravar o momento em que receberíamos a ligação dos clubes. Quem me ligou foi o treinador (Brian Flores), falando que tinha ficado muito impressionado com o que tinha visto e que eu seria um jogador do Miami Dolphins.

10) Qual jogador da NFL você almeja em derrubar?

Com certeza o Tom Brady, sou muito fã dele. Ele tem uma linha ofensiva muito boa na frente dele, então, se eu conseguir passar por eles em um dos dois jogos que teremos contra eles - na pré-temporada e na temporada regular - e conseguir derrubar ele uma vez será um grande feito: 'Olha lá, o Duzão conseguiu um sack no Tom Brady'. Isso seria muito bom pra mim, mas hoje eu não tenho distinção. Eu sou pago para ser profissional e derrubar todos, tenho que mostrar serviço agora. Não tenho um alvo específico, mas ele (Brady) seria muito importante para a minha carreira.

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