Daniele dá esperança à ginástica

A medalha de prata no solo, inédita na história da ginástica no Brasil, e o quarto lugar na final individual geral, ambos resultados conquistados por Daniele Hypólito no Mundial da Bélgica, são a esperança da modalidade no País. A Confederação Brasileira de Ginástica (CBG) não tem patrocinador e deve dois meses de salário (cerca de US$ 16 mil) ao técnico ucraniano Oleg Ostapenko.O Flamengo, clube de Daniele Hypólito e o mais tradicional nesse esporte, faz rifa para poder trocar o tablado, antigo e duro, e os colchões, desgastados e cheios de buracos. "E mesmo nessas condições, com o tablado horrível, que machuca a perna, a Daniele é a segunda melhor do mundo nos exercícios de solo", afirma um dos treinadores do Flamengo, Renato Alves.De acordo com a treinadora Georgette Vidor, a diretoria do clube carioca prometeu acertar a dívida essa semana, com o dinheiro ganho pela equipe de futebol ao garantir vaga nas semifinais da Copa Mercosul.A coordenadora de ginástica do Flamengo, Raquel Souza Leão, explica que o clube pode até extinguir a modalidade se o departamento não conseguir patrocínio para o ano que vem. "O presidente (Edmundo Santos Silva) avisou que o clube passa por situação financeira complicada e que os esportes amadores precisam buscar parcerias. Na verdade, não sabemos o que vai ser da gente", afirma Raquel, obrigada a usar a criatividade para dar o mínimo de condições aos 60 atletas, do pré-mirim ao adulto. "O arrecadado nas rifas de um real, vendidas para pais e amigos dos atletas, é usado para reformar os colchões."Georgette observa que além de um novo tablado (custa mais de US$ 70 mil), outros aparelhos precisam ser trocados. O cavalo utilizado no Mundial, por exemplo, é novo, mais comprido, e diferente do aparelho que Daniele dispõe no Flamengo - a cada quatro anos, a Federação Internacional pode fazer mudanças nas regras e aparelhos. Daniele Hypólito teve a nota mais baixa no cavalo na final geral individual do Mundial da Bélgica.Do fogão à pia - A presidente da CBG, Vicélia Florenzano, diz que está "flutuando, que tudo parece um sonho" e espera que a ginástica brasileira, 11ª colocada na final por equipe no Mundial, não sofra mais neste País. "Agora podemos decolar e quem sabe um dia, alcançar o prestígio do vôlei."A CBG nunca teve patrocínio - salvo nove meses em 1998, em que contou com a parceria da Telebrás - e sobrevive das taxas de inscrições de torneios pelo Brasil. "Sobra uns R$ 5 mil, quando o campeonato é bom, com muita gente", declara a presidente, que diz fazer loucuras pelas meninas. Na preparação para o Mundial, em Curitiba, ela e a supervisora Eliane Martins cozinhavam e lavavam louça. E não foi só um dia. "Não dava para contratar um bufê", explica.Para ir à Bélgica, a equipe brasileira precisou de recursos do Ministério do Esporte e Turismo, assim como o judô e o boxe, que voltaram sem medalha. A CBG pagou o seguro de saúde e os uniformes. A alimentação ficou a cargo das próprias ginastas. Daniele Hypólito, por exemplo, contou com ajuda do jogador Ronaldo, da Inter de Milão.

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