Dartagnan quieto: o silêncio de quem já fez muito auê

Depois de 4 Olimpíadas e 3 Pans, corneteiro está proibido de tocar no Rio

Mônica Manir, O Estadao de S.Paulo

24 de julho de 2007 | 00h00

Dartagnan Jatobá tem a voz rasgada pelo esforço. Por mais de 20 anos mandou gritos de guerra da arquibancada alternando a corneta e o gogó. O médico mandou dosar, ''''desse jeito, vai te dar um câncer e aí tu vai ser esquecido''''. Ele não teve câncer nenhum, mas também não foi lembrado pela organização dos 15º Jogos Pan-Americanos.Com passaporte carimbado por quatro Olimpíadas (Los Angeles, Barcelona, Atlanta e Sydney), quatro Copas do Mundo, três Pans, 17 Copas Davis, cinco Mundiais de Vôlei, seis GPs Brasil de Fórmula 1, mais de dez Sul-Americanos, mais de 12 Troféus Brasil, Dartagnan ainda assim não se atreve a adentrar numa arena ou num estádio do evento. Não quer passar pelo constrangimento de ser barrado. Silenciou a corneta e o gogó.Quem o limita, no papel, são as normas de segurança exibidas logo à entrada das instalações do Pan. Lá está que instrumentos musicais estão proibidos, assim como canetas, apontadores, papel picado, buzinas, bolas, animais - exceto cão-guia - e outros itens que possam causar prejuízo, danos ou incômodo a terceiros. ''''A gente sabe usar os instrumentos, não vai lá fazer barulho, sabe quando parar'''', diz o ex-campeão carioca de judô, que copiou a paixão do pai pelo instrumento.O pai zelava por um pistão. Dartagnan inventou a mampete, uma mangueira com som de trompete, ''''assim como Hermeto'''', compara-se. Foi para a torcida do Mengão e começou a inflamar a galera com gritos de guerra musicados. Em 1982, já dono de uma corneta normal e doído com a eliminação do Brasil na Copa, chamou um pessoal da rua que tocava percussão para acompanhar o Mundialito de Vôlei no Maracanãzinho.Platéia do dia-a-dia: 500 pessoas, no máximo. Bernard? Renan? William? Bernardinho? ''''Ninguém conhecia os caras'''', lembra. Dartangnan mandava lá de cima um mulata bossa-nova, depois um parapá, parapá, pararararapá, e Bernard olhava para arquibancada: ''''Quem é esse cara, gente?'''' O povo só foi acordar na final, Brasil 3 a 2 na União Soviética.Em 1987, no Pan de Indianápolis, já conhecido, foi chamado por Thomas Koch para incendiar a quadra de tênis no jogo de Fernando Roese contra um norte-americano. Sem ingresso nem grana para uma Coca sequer, Dartagnan e equipe fizeram embaixadinhas na entrada da arena fingindo-se jogadores da seleção.''''Quando a gente finalmente entrou e tocou a corneta, o Fernando olhou pra cima, abriu os braços e disse ''''os caras chegaram''''''''. Perdia, até então, de 2 a 0. Levou o ouro em simples.De Indianápolis, Dartagnan ainda tem a lembrança incandescente de outra final contra os Estados Unidos, a do basquete: Marcel com uma cesta milagrosa no fim do primeiro tempo, o time saindo abraçado para o vestiário, Oscar voltando ''''com a dádiva do improviso'''', bola daqui, bola de lá, o estádio lotado de norte-americanos, Dartagnan mais dois brasileiros isolados no meio entoando ''''em cima, embaixo, puxa e vai'''', inventado dias antes.Depois da vitória do Brasil por 120 a 115, Oscar se desmantelava na quadra enquanto os três gritavam para a organização trocar a ordem das bandeiras. Tinham pré-hasteado a do Brasil em segundo lugar.''''Em cima, embaixo, puxa e vai'''' estourou mesmo em Barcelona, em 1992, quando Spike Lee se juntou aos brasileiros no jogo contra a Holanda. Alguns ficaram intimidados com a presença do cineasta, outros queriam pedir autógrafo. Dartagnan deu a bronca: ''''Temos é que assediar o time do Brasil''''. Perdeu a voz, mas mesmo assim foi para as Ramblas comemorar a primeira vitória de um esporte coletivo brasileiro nas Olimpíadas. ''''Senti que aquilo ia transformar a história do esporte no País, uns iam ficar mais pobres, outros mais ricos.''''A Equipe Dartagnan, na época, já era patrocinada pelo Banco do Brasil e fazia o circuito do vôlei de praia. Em 1994, porém, um incidente arranhou a imagem do grupo no Mundial de Atenas. A tevê grega mostrou mulatas de biquíni sambando perto da torcida e Dartagnan foi acusado de contratá-las por fora. ''''Elas faziam parte de uma escola de samba na Grécia, apareceram ali por conta própria, compraram ingresso e tudo, não tive nada a ver com isso'''', garante. O fato é que o Brasil fez uma campanha pífia e o contrato de Dartagnan com o Banco acabou.O corneteiro e seu time ainda fizeram a Olimpíada de Atlanta, mesmo proibidos de tocar pelo regulamento do comitê. No Pan do Rio, ficou com vontade de agitar as partidas de tênis. Alguns torcedores até sentiram falta da vibração dele. ''''Sou um torcedor-atleta desde o tempo em que a gente amarelava direto diante dos Estados Unidos, do tempo em que a natação só conseguia o sul-americano, do tempo do Cássio Mota e do Luiz Mattar, que nunca tiveram apoio.'''' Não deu. Tira da mochila uma corneta prateada. Quer, pelo menos, marcar o passo de Jadel Gregório no salto triplo. ''''Há seis anos a gente vem acompanhando o Jadel. Pelo amor de Deus! Você já viu o cara? Ele vai bater o recorde do sueco (Christian Olsson). É o calo dele, mas sei que vai bater.''''

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