Das piscinas para o campo

Ex-nadadora avisa: ?Agora o futebol feminino tem uma imperatriz?

Vannildo Mendes, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

25 de outubro de 2008 | 00h00

"O futebol feminino agora tem uma imperatriz, sou eu." A autoproclamação é da atleta Rebeca Gusmão, comparando-se ao centroavante Adriano, apelidado de "Imperador" no futebol italiano. Banida das piscinas pela Federação Internacional de Natação (Fina), depois de ter suas medalhas do Pan-Americano do Rio cassadas, sob acusação de doping, Rebeca fechou contrato para disputar a próxima Copa Nacional de futebol feminino, a ser realizada a partir de dezembro, enquanto aguarda o julgamento de sua apelação, previsto para janeiro. Ela será centroavante na Associação Atlética Esportiva e Recreativa dos Cooperados do Distrito Federal (Ascoop) e vestirá a camisa 5, número da raia em que ganhou as últimas medalhas no Pan do Rio, em 2007.Sobre suas potencialidades, ela é otimista: "Na parte técnica, já peguei muita coisa, principalmente jogo de corpo", afirma. "Aliás, jogo de corpo é o que não me falta", diz ela, entre risos, numa referência ao seu corpanzil, maior agora que está fora de forma, de 84 quilos distribuídos em 1,85 metro de altura. "Adversários, tremei!", avisa. Filha de jogador profissional - o pai, Ajalmar, jogava no Náutico do Recife, na década de 70 -, Rebeca diz que desde cedo pegou intimidade com a bola. "Mas meu xodó mesmo era a piscina", lembra, explicando que a paixão virou obsessão quando tinha 10 anos, época em que o nadador Xuxa, seu ídolo, despontou como grande nome da natação brasileira. O namoro com o futebol feminino ganhou contornos em 2003, nos Jogos Pan-Americanos de Santo Domingo, quando Rebeca conheceu a seleção brasileira, medalha de ouro na competição. Ela ficou amiga das jogadoras Formiga e Faísca. "Brincava de queimada e jogava ?peladas? com elas nas horas de folga, como crianças", conta a ex-nadadora. Hoje no quinto período de educação física no Centro de Ensino Unificado de Brasília (Uniceub), Rebeca diz que não teve sossego até aderir a um novo esporte. Por razões óbvias, evitou a natação, mas não resistiu ao futebol e passou a freqüentar as modalidades de campo e de salão, até ser descoberta pela Ascoop. Mal na primeira edição, quando ficou entre os últimos lugares, o time montou um elenco competitivo agora. Entre os reforços, foram também contratadas as atletas Jéssica, irmã de Rebeca, e Daniela, ambas convocadas para a seleção brasileira sub-20. Mas a esperança de gols é uma só. "É ela, a nossa imperatriz", diz o presidente do clube, Arnaldo Freire, satisfeito com a visibilidade que a ex-nadadora trouxe à equipe. Os ídolos de Rebeca são Ronaldinho Gaúcho e, claro, Adriano, a quem aprendeu a admirar pelas inevitáveis comparações. "Gosto disso, ele também é forte e lutador." Rebeca está consciente de que pode ser banida para sempre do esporte, mas diz ter recebido sinalização das entidades esportivas de que, caso confirmada, a punição, embora inapelável, valerá somente para a natação. "Essa palavra (banimento) não existe no meu dicionário", diz ela, alegando que sua vida é o esporte. "Não me vejo fazendo outra coisa, ou atleta ou treinadora", afirma. "Se me derem uma bola de vôlei, sei fazer um saque. Se a bola for de basquete, faço uma cesta. Se for de futebol, é gol."A ex-nadadora está casada há dois anos com o cantor de ópera Gutemberg Amaral, com quem diz ter uma vida feliz. "Ele é o maior entusiasta da minha carreira e sempre tem me apoiado nessa transição difícil", conta. "Ele não perde uma partida, grita e vibra a cada jogada que faço no futebol."Rebeca lê jornais regularmente e gosta de literatura, sobretudo romances. O livro mais recente que leu, A Última Grande Lição, é uma reflexão sobre a vida. "Tudo a ver com as provações que passei no último ano, quando minha vida desabou. Fui humilhada, julgada e condenada de forma impiedosa."MEMÓRIAReincidência no doping baniu atleta da nataçãoRebeca Gusmão está impedida de voltar a nadar profissionalmente. A nadadora foi banida do esporte pela Federação Internacional de Natação (Fina) em setembro deste ano, depois de condenada em seu segundo caso de doping. O primeiro foi em maio de 2006, durante o torneio José Finkel. Depois, a atleta foi flagrada em um exame feito antes dos Jogos Pan-Americanos do Rio, no ano passado. Perdeu todas as medalhas conquistadas no evento: duas de ouro, duas de prata e uma de bronze. A decisão está sendo contestada pela atleta na Corte Arbitral do Esporte (CAS).

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