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Antero Greco
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De passagem

O que é bom dura pouco não sai de moda no Brasil. Ainda mais no futebol. Pode reparar: quando começamos a curtir uma equipe forte e, num exagero de entusiasmo, vislumbra ali embrião de Real Madrid, Barcelona, Bayern - enfim, um esquadrão -, vem a realidade para baixar a bola e nos mostrar o quanto os clubes daqui estão distantes desses gigantes europeus.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

26 de janeiro de 2015 | 02h03

O exemplo da vez é o Cruzeiro. Nas duas últimas temporadas, colecionou elogios e adjetivos pomposos, arrancou suspiros de admiração dos torcedores e provocou dor de cotovelo nos rivais. O bicampeão nacional foi apontado como modelo de persistência, ao manter técnico e grande parte do elenco. Como prêmio, aumentou o acervo de troféus.

O resultado de tamanha exposição? Ela despertou a cobiça de endinheirados do mundo, que vieram para cá pescar alguns dos principais astros mineiros. Em menos de um mês de 2015, já limparam os armários na Toca da Raposa o jovem Lucas Silva (fisgado pelo Real Madrid) e a dupla Ricardo Goulart (vai para a China) e Everton Ribeiro (acertado com um árabe da vida). Três jogadores de realce são baixas no momento em que o técnico afia o grupo para a disputa de outra Libertadores.

A diretoria alega duas razões para a saída da turma - e as de sempre: equilibrar o caixa e o desejo dos rapazes de ganharem em moedas mais reluzentes do que o real. Falta acrescentar outro fator decisivo: o fatiamento dos direitos econômicos, o apelido moderno para o antigo passe. Os atletas são pizzas, divididas entre diversos parceiros. Um pedaço pertence ao clube, outro ao próprio moço, mais um a grupo de investidores. Daí, basta vir uma oferta bacaninha para engordar o olho de um monte de gente para quem o futebol é uma bênção, fonte de vida e especulação.

O torcedor se aborrece, mas é a parte ignorada com soberba. Dirigentes sabem que o fã se contenta com qualquer discurso me engana que eu gosto e logo esquece os que saíram. Prova disso foi a recepção de astro de primeira grandeza para o paraguaio Arrascaeta, que desembarcou em BH como se fora o Messi, tamanha vibração popular. E, por enquanto, se trata só de promessa de 20 anos e carreira curta. Mas já entrou em ação o esquema de marketing para transformá-lo em craque.

Vez ou outra dá certo. E, se der, logo em seguida, baterá asas também, em direção à Europa ou Ásia. Nossas equipes se especializam no papel de incubadoras ou vitrine. Mal desponta um menino bom de bola para que chovam propostas do exterior. Não criam raízes, não atraem novos admiradores para os times de origem, não viram referência.

No caso do Cruzeiro, a tendência é a de ruptura na estrutura. Ricardo e Everton foram fundamentais nos títulos da Série A, atuaram como pulmão e cérebro do esquema de Marcelo Oliveira e, por isso, chegaram à seleção. Sem ambos, a lógica aponta para o baque e enfraquecimento, ao menos por um período. Posso enganar-me - e torço por isso - mas, o projeto do terceiro título continental se prejudica.

Os desdobramentos não se limitam às modificações numa trupe vencedora. Os reflexos se estendem além do Cruzeiro. A forma de jogar emperra, os times marcam passo e vêm aumentar a distância na comparação com o futebol atual. No sábado, o Corinthians suou para fazer 3 a 0 (com gols nos últimos 12 minutos) em cima do Corinthian Casuals, no Itaquerão. Não me convenceu o papo de que era jogo festivo, histórico e blablabá. Os ingleses são amadores, disputam a sétima divisão no país deles e se comportaram com altivez e disciplina tática. Nossos briosos profissionais, com salários de vários milhares de reais, tiveram dificuldade diante deles.

Por mais que entrem em ação os bombeiros de plantão e da água com açúcar, Os 1 a 7 para a Alemanha na Copa não foram um mero apagão.

Copinha. O Corinthians ganhou a Taça São Paulo pela nona vez. Parabéns. Mas despontou algum talento fora do comum na competição?

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