De quem pegar

Não que isso seja uma exclusividade do Brasileirão 2011, pois o de 2010 não foi muito diferente e o de 2009 seguiu praticamente o mesmo roteiro. Mas, ao que tudo indica, nosso campeonato tem uma nova característica, bem diferente das edições dos anos 70, 80 e 90, quando era comum vermos poucos esquadrões jogando um futebol de alto nível. Eu falei em poucos esquadrões e quero lembrar que esses poucos às vezes eram apenas um, como o Inter de Falcão, o Flamengo de Zico e o Palmeiras de Edmundo. Hoje, em vez de poucos timaços jogando muita bola, temos um monte de times entre razoáveis e arrumadinhos e, ainda assim, sonhando com o caneco.

Marcos Caetano, O Estado de S.Paulo

10 de setembro de 2011 | 00h00

É como se os alto-falantes do estádio anunciassem: "Senhoras e senhores, substituições no futebol brasileiro. Sai técnica, entra emoção; sai qualidade, entra quantidade."

Não é preciso ter memória de estudioso do futebol para recordar o enredo das últimas edições do Brasileirão. Em 2009, o título praticamente caiu no colo do Flamengo na reta final da competição. Na primeira metade, o Palmeiras de Muricy parecia imbatível, mas ficou pelo caminho. O São Paulo mancou, o Inter idem, o Grêmio foi com um time de garotos para o último jogo contra o Rubro-Negro - e deu no que deu. Flamengo campeão e o Palmeiras, depois de uma arrancada do Cruzeiro, ficou fora até da Libertadores.

No ano passado, a história foi parecida, embora com outros personagens. O Corinthians apareceu como a grande barbada e manteve-se na ponta no primeiro terço da competição. E como conseguiu vencer seu grande perseguidor, o Fluminense, nos dois confrontos entre ambos, o clube parecia destinado ao penta. Mas tropeços inexplicáveis contra equipes mal na tabela nas últimas rodadas deixaram o time na terceira posição, atrás do Cruzeiro, que deu nova arrancada e quase foi campeão.

Até o Grêmio, que terminou o primeiro turno no fundo da tabela, chegou a sonhar com o caneco. No fim, contando com o baixo empenho de Palmeiras e São Paulo na reta final, O Fluminense soube segurar o título.

Na atual edição, a novela tem ainda mais personagens, todos querendo ficar com a mocinha no final. Considerando que o Flamengo brigou pela ponta até bem pouco tempo e está há sete rodadas sem vencer - e que o próprio Corinthians, atual líder, conquistou apenas 11 dos últimos 24 pontos disputados -, é fácil concluir que caminhamos para outro desfecho imprevisível.

Para o meu gosto, quem vem jogando o melhor futebol hoje é o Botafogo, uma equipe muito ajustada nos três setores e que parece extremamente unida, sob a liderança de seus gringos artilheiros, Loco Abreu e Herrera. O Vasco, em que pese a bizarra derrota por goleada para o América-MG, também está arrumado. Com o Flamengo ainda no páreo e o Fluminense querendo entrar, o futebol do Rio pode chegar ao tricampeonato. Há muito tempo não víamos os quatro cariocas entre os seis primeiros.

Só que os paulistas não pretendem dar esse gostinho para os rivais.

Além do Corinthians, que aos trancos e barrancos se mantém na ponta, o São Paulo está logo ali, de olho na taça. Se Adriano e Luís Fabiano entrarem nessas equipes jogando metade do que sabem, o panorama pode mudar, pois eles podem agregar o brilho que hoje falta ao jogo do líder e do vice-líder. É esperar para ver - e eu confesso que espero mais de Fabigol, que precisa vencer apenas a contusão, ao contrário do Imperador, que, além da contusão, tem que vencer as confusões. E a balança.

Não descarto o Palmeiras, porque Felipão vem conseguindo tirar água de pedra, ainda que haja limites para a magia. A esse Rio-SP do topo da tabela, eu somo ainda o Inter como postulante ao título. Com menos chances, mas, graças ao brilho de Damião, no páreo. Noves fora, temos nada menos do que oito candidatos à conquista. Nenhum outro campeonato é assim. Para quem gosta de emoção, um prato cheio. Para os que, como eu, gostam de suspense com qualidade - como num filme do Hitccock - falta tempero.

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