De tirar o chapéu

Futebol que se preze é feito de hipérboles, exageros, imagens fortes, emoção e adjetivos a torto e a direito. Quando faltam esses ingredientes, vira jogo de bola murcha, comportado e fútil. Quem hoje mantém a tradição do fantástico no esporte é o Barcelona. O time espanhol - ou catalão, como eles preferem - é das coisas mais lindas que há para ver.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2011 | 00h00

A turma de Messi, Iniesta, Xavi, Busquets, David Villa, Daniel Alves honra a história de esquadrões como os de Real Madrid dos anos 50, de Santos, Milan, Benfica, Peñarol, Independiente dos anos 60, do Brasil tricampeão do mundo e do Brasil de Telê, do Carrossel Holandês da década de 1970 e de tantas outras equipes que consolidaram o fascínio que o futebol exerce em pessoas sensíveis.

O recital do Barça, ontem à noite, no estádio de Wembley, já entrou na antologia dos grandes momentos da Arte. O que se viu no renovado e sempre mítico templo da bola encravado em Londres não foi apenas um jogo de futebol, o que por si só já teria enorme importância. O que esse pessoal guiado por Pep Guardiola fez nos 3 a 1 sobre o Manchester é para ser visto e revisto à exaustão, lembrado, cantado em prosa e verso.

Abomino touradas, mas a comparação é inevitável, uma vez que se tratava de um time espanhol (ops, catalão!) em ação. O Barcelona pareceu aquele toureiro posudo, metido na roupinha apertada, a fazer piruetas diante do boi (no caso, o Manchester), que tenta acertá-lo e só fica cada vez mais tonto até ser abatido. Houve momentos em que deu dó dos ingleses, mais zonzos que peru em véspera de Natal, enquanto os rivais rodavam a bola pra cá e pra lá.

O Manchester caiu no erro de achar que poderia encarar o Barcelona de igual para igual. A mesma armadilha em que se estrepou dois anos atrás, em Roma. Não há como agredir um adversário que tem jogadores que dão um, no máximo dois toques na bola, e já se livram dela. Pois o Barcelona fez isso o tempo todo, o que tornou a marcação praticamente impossível. Pedro, Messi e David Villa fizeram os gols. Mas Daniel Alves, Xavi, Iniesta também tiveram chances. O gol de Rooney, que por alguns instantes deixou tudo igual (no 1 a 1), serviu como prêmio de consolação para um time aplicado, correto e comum.

O Barcelona é o extraordinário - e felizmente desta vez os tais deuses do futebol, sempre lembrados quando acontece uma zebra, foram dar uma voltinha e não atrapalharam. Se se metessem a besta, também entrariam na roda.

Conversa fiada. O Barça é coisa séria, mas tem muito lero-lero por aí. Repare como despontaram prosopopeias, como dizia o Toninho Cazzeguai, personagem saudoso do Bom Retiro que estou sempre a lembrar. Pegue o noticiário internacional, por exemplo, e veja como anda turbinado com trocas de acusações entre Joseph Blatter e Mohamed Bin Hamman, que até dias atrás eram aliados e agora se batem pelo poder na Fifa.

O suíço, mandachuva mor da bola, e o árabe, presidente da Federação Asiática, logo se enfrentam em eleição e resolveram seguir o script tradicional desses momentos. Como? Desandaram a falar mal um do outro. Coisas de corar frade de pedra. Disseram isso e aquilo e acabaram sob a vigilância do Conselho de Ética da Fifa, que examina se procedem denúncias de corrupção a envolvê-los. Sabe no que vai dar? Pois é...

Dê uma passeada pelas notícias domésticas e confira como há oferta de canção de ninar boi. Algumas têm a ver com a Fifa, ainda. Pois não voltou à tona a ameaça de que São Paulo será excluída do Mundial? A metrópole já foi chutada para escanteio na Copa das Confederações de 2013, porque não terá aprontado até então seu estádio. Poderia ser riscada do mapa da mina Mundial, porque as obras estão atrasadas. Não acredito nisso, mas, se acontecer, azar da Copa.

E os estádios e seus orçamentos? Outra ladainha que dói em ouvidos e mentes sensatos. A todo momento os custos mudam - sempre mais para o alto. Daqui a pouco reformas e construções das 12 "arenas" serão maiores do que o PIB de metade do mundo. Não faltarão justificativas para os estouros em gestação. Vai acreditar quem quiser. E o Itaquerão? Começa a ser erguido nesta semana? Ou a cada semana que entra saberemos que o início das obras ficará para a semana que vem? Ou para a outra? Da próxima não passa, agora vai, ninguém segura!

É muito papo furado.

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