Monica Zarattini /AE
Monica Zarattini /AE

De veto em São Paulo ao pódio em Tóquio, skate travou luta contra preconceito e tenta fazer história

Marginalizada em seu início, modalidade chegou a ter sua prática  proibida em São Paulo

Toni Assis, especial para O Estadão

26 de julho de 2021 | 14h00

As duas medalhas de prata obtidas pelo skate nos primeiros dias de competição nos Jogos de Tóquio foram suficientes para colocar a modalidade em evidência aos olhos dos brasileiros que estão acompanhando o evento por aqui. A proeza de Kelvin Hoefler e Rayssa Leal popularizou um esporte que, estreante nesta Olimpíada, está sendo muito bem representado pelo Brasil. Mas nem sempre foi assim. Marginalizado nos anos 70 e até proibido por lei no fim da década de 80, o esporte sobre rodinhas começa, agora, a marcar uma reviravolta em sua trajetória. São anos de luta de seus praticantes.

Em tempos de redes sociais, o feito obtido do outro lado do mundo foi comemorado por quem ajudou a dar luz aos skatistas em tempos complicados. A deputada federal Luiza Erundina (PSOL_SP) foi quem liberou a prática do skate durante o seu mandato à frente da prefeitura de São Paulo (1989 e 1992).

"E a nossa primeira medalha na Olimpíada de Tóquio veio justamente do skate, com o atleta Kelvin Hoefler. Hoje um esporte olímpico, no passado, discriminado e proibido em São Paulo, que Erundina liberou! Parabéns Kelvinho", citou a postagem feita em seu twitter.

A postagem nos remete a um tempo em que o skate não era bem visto no Brasil. De origem americana, a modalidade teve o seu boom inicial no fim dos anos 70. Nessa época surgiram as primeiras pistas em São Paulo. Grandes cidades como Rio e Porto Alegre também seguiram a onda.

Sem forte apelo nos anos seguintes, os praticantes paulistanos passaram a se reunir no Parque do Ibirapuera. Logo, o local tornou-se um ponto de encontro para esses adeptos. Algumas publicações especializadas como a Overall e a SKT News, que surgiram a partir de 1985, ajudaram a dar visibilidade para a modalidade.

Mas foi justamente uma proibição em 1988 que acabou dando mais força para quem se empenhava na prática de se equilibrar sobre as quatro rodinhas. Inicialmente, o prefeito Janio Quadros vetou o uso de skate no Parque do Ibirapuera. Um protesto de skatistas contra essa medida aumentou o rigor da prefeitura e, por meio de um decreto de junho de 1988, o veto se estendeu para toda a cidade.

A medida provocou uma manifestação que juntou cerca de 200 pessoas na altura do metrô Paraíso. Entre as reivindicações dos skatistas, estava o pedido da construção de um espaço para que os esportistas pudessem praticar a modalidade. Apesar da restrição, campeonatos continuaram a ser organizados e eram comuns os atritos entre praticantes e a guarda municipal da prefeitura. Essa rusga só terminou com o ato de Erundina a partir do seu mandato.

O surgimento de campeonatos com maior visibilidade nos anos 90 atraiu nomes como os norte-americanos Tony Alva e Tony Hawk. O intercâmbio foi fundamental para o surgimento dos primeiros skatistas da história do país como Lincoln Ueda, Sandro Dias e Bob Burnquist. O movimento veio a partir daí. A modalidade street, que se caracteriza por simular a paisagem urbana, tornou o skate ainda mais forte e a evolução de manobras mais diversificadas foi bem assimilada no Brasil. O apoio da mídia ajudou a popularizar o esporte e os documentários especializados tiveram papel importante para melhorar a imagem do skate.

Pioneiro e um dos grandes nomes dessa prática, Bob Burnquist foi eleito, em 1997, o melhor skatista do mundo. A criação da CBSk (Confederação Brasileira de Skate) a partir de 2000 alavancou a construção de centenas de pistas no Brasil. Com mais de 2,5 milhões de adeptos e o surgimento de novos valores como Rayssa Leal, Pâmela Rosa e Kelvin Hoefler, o Brasil passou a ser uma referência no esporte. Desde o fim de semana, começou a fazer história na Olimpíada.

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