Daniel Piza, daniel.piza@grupoestado.com.br, O Estadao de S.Paulo

15 de abril de 2009 | 00h00

Mas que chatice! Num raro fim de semana em que podemos debater grandes lances de futebol, demonstrações claras de qualidade individual e coletiva, só se fala em erros de juiz e agressões de jogadores? Para ficar apenas no Campeonato Paulista, os dois primeiros jogos das semifinais foram muito interessantes. Agora leia os jornais ou veja as mesas redondas: encontrou algo parecido com o prazer de ter visto o ludopédio sendo bem jogado? É claro que arbitragem deve ser discutida, gestos e brigas lamentados, contusões noticiadas. A ênfase nesses temas, porém, não deveria ser tão maior.As duas partidas foram parecidas no resultado: duas viradas de 2 a 1 por parte dos times da casa. Mas foram distintas em estilo, como aliás se previa. Santos x Palmeiras foi aberta, com muitas chances de cada lado, muita velocidade, os dois camisas 9 funcionando na área. A jogada do gol do Palmeiras foi um contra-ataque rápido e elaborado entre Diego Souza, Cleiton Xavier e Keirrison. Mas o gol de Neymar foi mais memorável: ele dominou na meia-lua, girou e, sem precisar olhar para o gol, acertou um chute no canto. Isso é tão ou mais difícil de fazer do que pedaladas ou firulas. E dribles não faltaram, como a "caneta" de outro jovem talento, Paulo Henrique. No segundo tempo houve faltas demais, talvez por cansaço, mas sem tirar o brilho da partida.Já Corinthians x São Paulo foi truncada, com mais violência de ambos os lados, muita disputa, os cinco atacantes aparecendo pouco e mal. O São Paulo foi pior na região onde sempre se deu melhor, o meio-campo; a versatilidade de Hernanes e Jorge Wagner, já tão reconhecida, foi superada pela de Cristian e Elias, os autores dos dois golaços. No primeiro, Elias deu de esquerda numa bola que outros tentariam arrumar para a direita, surpreendendo Rogério. No segundo, Cristian pegou aquele chute diagonal e curvo à meia altura que é dos mais indefensáveis para o goleiro. Além disso, a escalação de três atacantes por Mano Menezes foi um alento, ainda que nenhum tenha atuado bem e que tenha faltado uma substituição depois da expulsão de André Dias.A presença das torcidas também foi elogiável. Não acho que a ausência de brigas sérias justifique a decisão de ceder tão poucos ingressos aos visitantes, pois é mais gostoso ver o estádio dividido e é possível fazer isso com segurança. Mas o fato é que santistas e corintianos fizeram a festa que lhes cabia fazer - e certamente isso ajuda a dar ao jogador aquele último sopro de vontade nos acréscimos do segundo tempo. Cabe agora às torcidas do Morumbi e Palestra uma festa equivalente em alegria e paz, por mais que jogadores, técnicos e dirigentes insistam em criar o clima adverso.Sim, Ronaldo esteve irreconhecível, salvo em duas tentativas de arranque; poderia ter sido expulso depois do pisão voluntário em André Dias e perdeu um gol cara a cara com Rogério, depois de dominar mal a bola (ela foi para frente e para cima, em vez de para o lado e no chão). Sim, Rogério está em má fase, embora isso não tenha nada a ver com a lesão sofrida anteontem, um triste acidente que poderia ter acontecido em seu apogeu. E, sim, o lance do gol são-paulino foi duvidoso, pois havia impedimento e Miranda empurrou Chicão (fato mais determinante que a queda de Washington com William). Já a expulsão de André Dias foi acerto óbvio, pois ele fez pelo menos quatro faltas duras.No entanto, o que deveria ficar é o bom nível técnico e emocional das duas partidas, principalmente a de sábado. Quem jogou melhor venceu. E olhe que boa notícia: no próximo fim de semana, tudo pode acontecer. Se os meias do São Paulo jogarem o que sabem e se o Palmeiras melhorar a marcação, a vitória por um mero gol de diferença sobre Corinthians e Santos, respectivamente, é bastante possível. Talento e vontade estão disponíveis para os clubes. Resta pedir para que os jogadores não estimulem o conflito tribal e se concentrem na bola. Dessa maneira, a imprensa também não terá desculpa para esquecê-la.

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