Década perdida

Palmeiras e Vasco, adversários desta tarde no Pacaembu, têm muitos pontos em comum. Ambos surgiram como times de colônia - e hoje não são mais, pois há muito seu universo de fãs se ampliou. Cada um tem quatro títulos do Brasileiro da era moderna (a partir de 1971) e uma Libertadores. Suas torcidas se entendem e trocam gentilezas quando se encontram, no Rio ou em São Paulo. Neste início de século, caíram para a Série B nacional. Mas a grande convergência aparece na constatação de que perderam a década. Fora o título da Segundona, que merece citação de passagem, subiram ao alto do pódio uma vez apenas, e em campeonato estadual - os vascaínos em 2003, os palestrinos em 2008. No mais, foram modestos coadjuvantes.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

12 de setembro de 2010 | 00h00

A fase de parcas conquistas, alguns vexames, diversas crises e muito constrangimento é um ciclo, de certa forma comum na existência de qualquer entidade, mas nos dois casos consequência de uma fileira de erros. A origem está no longo período em que foram comandados por "homens fortes", controladores, sem oposição, seduzidos pelo poder, que atingiram o auge e não perceberam a hora certa para sair de cena. Não se deram conta de que seus métodos estagnaram, foram atropelados pelo tempo. Por isso, agora as equipes padecem.

Mustafá Contursi e Eurico Miranda poderiam ter entrado para a história de seus clubes como guias de grandes proezas. Mustafá imperou no Palestra Itália de meados dos anos 1990 até 2005 e pegou o ciclo de vacas gordas da parceria com a Parmalat. Em seu reinado, o time quebrou jejum de 17 anos sem títulos, ganhou 2 Paulistas, 2 Brasileiros, 1 Copa do Brasil, 1 Libertadores, 1 Mercosul e outras taças menores. Fora a dezena de vezes em que chegou ao vice. Eurico Miranda oficialmente foi presidente do Vasco de 2000 a 20008, mas por quase duas décadas foi o mandachuva de fato - e nesse período viu seu time faturar 2 Brasileiros, 1 Libertadores, 1 Mercosul, uma penca de estaduais.

Mustafá e Eurico só não conseguiram driblar a indolência que atinge quem fica muito tempo no comando. A sensação de onipotência é boa e dá prazer, assim como entorpece e distorce a realidade, se não houver autocrítica. Quem se acostuma a ver suas vontades satisfeitas por anos a fio se sente infalível, insuperável, incomparável, acima do bem e do mal. Daí para o declínio é um pulo. Quando menos espera, quebra a cara, fica sem o trono e custa a entender que foi o grande responsável por sua desgraça ou pela instituição que controlavam.

Palmeiras e Vasco andaram para trás e são exemplos de que, no futebol e em qualquer setor da vida, não cabe mais o culto da personalidade. Não pode haver caudilhos, coronéis, senhores de engenho, patronos, todo-poderosos, salvadores da pátria e seja lá qual for os epítetos que receberem. Os times precisam de torcedores dedicados à sua frente. Acho esse pré-requisito imprescindível para o sucesso da empreitada, porque implica paixão.

Não me agrada a ideia de ver Vasco e Palmeiras, por exemplo, vendidos para obscuro ex-primeiro-ministro acusado de corrupção, para um investidor russo arrivista, para um milionário americano que não entende lhufas de bola. E todos de olho nos lucros. Tão importantes quanto o amor pelo clube, qualidades que o dirigente precisa ter são ousadia, sensibilidade, mente aberta para sugestões. Os clubes carecem de líderes, que estimulem o crescimento, e não de chefes, que imponham seus pontos de vista.

Dinamite e Belluzzo (Della Monica um pouco antes) são torcedores, assumiram pelo voto, têm boa vontade, representam mudanças, pagam a conta da herança, enfrentam oposição dos que ficaram à sombra e em alguns momentos se assemelham àqueles que combateram. Têm de estar atentos às tentações. O desafio que carregam é o de tirar Vasco e Palmeiras do ostracismo e recolocá-los no rumo que conhecem, o das jornadas grandiosas. Esses times têm vocação para protagonistas, não para figurantes. E a história se encarregará de julgar os cartolas e seus atos.

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