Definitivamente, a Copa do Mundo é nossa

Desde que o Brasil foi designado sede da Copa do Mundo de 2014, há quatro anos, um rosário de discursos asseguravam que a Viúva (os cofres públicos) não seria pilhada durante a complexa operação de concretização do evento.

Alec Duarte, O Estado de S.Paulo

21 de julho de 2011 | 00h00

Senão, vejamos. "Eu não vou escolher construtora, não vou comprar nada com dinheiro do governo. Isso talvez esteja incomodando muita gente, mas não vai ter dinheiro público", dizia Ricardo Teixeira, presidente da CBF e do Comitê Organizador Local em 2007.

Embutida na fala do cartola está a compreensão de que nem mesmo haveria licitações com dinheiro público - o Regime Diferenciado de Contratações, aprovado neste ano pelo Congresso, desmentiria cabalmente o dirigente (a não ser pelo aspecto de que ele, em pessoa, de fato não fará essas compras).

Pelo RDC original, nem mesmo o orçamento de obras relacionadas a Copa e Olimpíada seria transparente, o que a pressão da opinião pública reverteu posteriomente.

No mesmo longínquo 2007, o ministro do Esporte, Orlando Silva, fazia coro ao presidente da CBF e sua cruzada pelas boas práticas da governança e do gasto público. "Os estádios para a Copa do Mundo serão construídos com dinheiro privado. Não haverá um centavo de dinheiro público para os estádios".

E o candidato ao governo do Estado Geraldo Alckmin, que em campanha em julho de 2010 garantiu, com sua entonação característica, que estava comprometido com a austeridade? "Não tem sentido colocar dinheiro público em equipamentos, estádios. Deve ser dinheiro privado".

Agora descobrimos que o Estado, sim, está empenhado até o pescoço para fazer do estádio de Itaquera o palco de um evento que dura um dia, a cerimônia de abertura do Mundial.

Nem o ex-presidente Lula, adepto do contorcionismo verbal, foi capaz de prometer que não haveria dinheiro público no torneio. Pelo contrário: acenando com a participação do BNDES, desde sempre ele deixou claro que as esferas de governo teriam de meter, de alguma forma, a mão no bolso para receber o mundo em 2014.

Mas há diferença entre um empréstimo do BNDES (que, até onde sabemos, terá de ser honrado e pago) e passos muito mais arriscados e sem volta, como oferta de isenção fiscal ou, mais grave, de participação efetiva em obras, como a que ora emerge das sombras em São Paulo.

A Copa do Mundo brasileira, que já não estava barata, vai ficando cada vez mais cara. Às custas das pessoas que honram seus compromissos e pagam impostos.

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