Ryan Christopher Jones/The New York Times
Ryan Christopher Jones/The New York Times

Dentro de um apartamento, corredor quer completar maratona de 100 milhas, 100 vezes em 100 semanas

Michael Ortiz faz uma raia retangular dentro de casa e dá mais de 13 mil voltas nela para atingir marca

Christopher Solomon, The New York Times

04 de maio de 2020 | 15h39

A primeira vez que Michael Ortiz correu 100 milhas (160 quilômetros) dentro de seu apartamento de 90 metros quadrados no Brooklyn foi a mais difícil. Ele fez uma raia mais ou menos retangular de 12 metros de comprimento no chão da sala e deu 13,2 mil voltas nela. Para proteger os joelhos de tantas curvas, Ortiz parava a cada quilômetro e mudava a direção. "Não estava funcionando muito bem", disse ele. "Parecia que estava arrastando os pés, só que mais rápido".

Ele demorou mais de dez horas. Três dias depois, Ortiz correu mais 160 quilômetros dentro do apartamento, desta vez em cima da esteira nova que ele tinha encomendado. Quando terminou, tomou um banho, comeu, dormiu cinco horas e depois voltou para a esteira e correu mais 160 quilômetros, pela terceira vez. Na sexta-feira, Ortiz começou sua sétima corrida confinada de 160 quilômetros em seis semanas.

Nessa pandemia de coronavírus, muitos de nós estamos atolados no sofá, passando o dia inteiro de pijama comendo carboidrato na frente da televisão. Mas também existem os fortes, os que ficam loucos para se exercitar, que tentam fazer o máximo possível da vida confinada. Alguns chegaram a participar de triatlos virtuais em bicicletas estacionárias. Um britânico correu uma maratona no quintal de casa.

E, então, temos Ortiz, de 36 anos, executivo do mercado financeiro e atleta de provas de resistência só por diversão. Desde o final de 2018, Ortiz está numa jornada pessoal para completar 100 corridas de 100 milhas (160 quilômetros) em 100 semanas, com pelo menos uma corrida em cada estado do país.

Ortiz estava na sua 68ª semana, viajando por Utah para sua próxima corrida em Nevada, quando começaram a anunciar cancelamentos de maratonas por causa da pandemia de coronavírus. Embora sua corrida ainda estivesse de pé, Ortiz decidiu voltar a Nova York, preocupado com a possibilidade de contrair o vírus, ficar assintomático e contribuir para sua disseminação.

Uma vez em casa, Ortiz percebeu que precisaria ser criativo se quisesse persistir na sua jornada, então criou sua "série 100 indoor". Na quarta corrida, Ortiz buscou altitude, subindo 9 mil metros verticais na esteira – o equivalente ao Monte Everest. Para se refrescar, posicionou quatro ventiladores ao redor e ligou um desumidificador e duas unidades de ar condicionado, a 21 graus.

Ele troca ideias para suas próximas corridas com Laura Knoblach, atleta de resistência que mora em Boulder, Colorado, com quem está namorando. Depois de sua escalada do Everest na esteira, ele pensou em descer de volta ao nível do mar. Knoblach então sugeriu que ele corresse até o ponto mais profundo da Terra, a Fossa das Marianas, a 11 mil metros abaixo do nível do mar.

Knoblach é um incentivo para os masoquismos de Ortiz: em novembro do ano passado, ela quebrou o recorde mundial no ultratriathlon double deca, evento equivalente a vinte corridas de triatlo consecutivas: 78 quilômetros de natação, seguidos por 3600 quilômetros de ciclismo e 840 quilômetros de corrida.

Ele se propõe a fazer esses desafios diferentes para evitar lesões de esforço intenso e repetitivo por tantas horas correndo na esteira, mas também para se manter em forma para as corridas do mundo real – e para quebrar a monotonia.

Os ultramaratonistas mais ambiciosos fazem até uma ou duas corridas de 160 quilômetros num mesmo ano, disse James Varner, fundador da Rainshadow Running, que organiza corridas em trilhas na costa noroeste do Pacífico. O que Ortiz está fazendo, correndo 160 quilômetros a cada dois dias, "está completamente fora do universo normal dos ultramaratonistas", disse Varner. "É como saltar de Fernão de Magalhães direto para os astronautas".

Uma pessoa não consegue correr 160 quilômetros pelas montanhas, muito menos numa esteira, sem uma boa dose de obstinação, e Ortiz reconhece que é um homem movido a desafios. Mas esse impulso ganhou um caráter diferente nos últimos anos. Quem mudou tudo foi seu irmão, David.

Ortiz cresceu em conjuntos habitacionais públicos em Manhattan, numa família unida que se unia mais ainda com sete pessoas morando no mesmo apartamento: mãe, avós, duas tias com deficiência mental e David, o irmão mais velho que ele adorava.

Ortiz se formou em Princeton e acabou indo trabalhar em Wall Street, subindo rapidamente até uma vice-presidência no Morgan Stanley, onde passava 70 horas por semana trabalhando para ficar rico.

David tomou um caminho diferente. Trabalhava como gerente de uma loja de roupas, cuidava das tias e, depois de uns anos, se mudou com a esposa para San Diego, onde começaram a treinar para correr uma maratona. Aquilo deixou Michael impressionado.

Os irmãos nem sempre se entendiam. Michael dizia ao irmão mais velho para viajar menos e guardar mais dinheiro. Seu irmão o repreendia, dizendo que ele estava se limitando e o lembrando de que o objetivo da vida não era juntar dólares: "Você precisa aproveitar mais a vida. Você nunca saiu do país".

Mas, então, David foi atropelado e morto indo de bicicleta para o trabalho, em 2012. Tinha 29 anos. Enquanto tentava assimilar aquela perda repentina, Michael ouvia o eco dos conselhos do irmão. No velório, "a única coisa que todo mundo tinha a dizer era que ele tinha aproveitado muito bem a vida", lembrou Ortiz. “E eu fiquei pensando: "Cara, se eu morrer amanhã, o que as pessoas vão dizer sobre mim? Aqui está o Mike. Bom rapaz. Trabalhava o tempo todo, até nos fins de semana".

Em 2013, Ortiz começou a correr nos fins de semana, em passeios curtos, só para conhecer o bairro, deixando o tráfego determinar sua rota. As corridas de fim de semana logo se tornaram um ritual – muito esperado depois de longos dias de trabalho.

s corridas foram crescendo. Em 2015, Ortiz correu a Maratona de Nova York e, pouco depois, sua primeira ultramaratona, com 60 quilômetros. Aí veio uma de 80. E, em agosto de 2016, ele fez sua primeira corrida de 160 quilômetros. A primeira logo puxou a segunda. E duas viraram muitas.

No final de 2018, Ortiz estava na sua jornada para correr 100 milhas – aproximadamente a distância de Nova York à Filadélfia – por 100 semanas consecutivas. Às vezes, ele viajava para uma corrida na sexta-feira à noite, corria 160 quilômetros e depois pegava um voo de madrugada para estar de volta à sua mesa na segunda-feira de manhã.

Ortiz perdeu o emprego numa onda de cortes em sua unidade pouco antes da pandemia. Às vezes, durante uma corrida, ele desacelera a esteira para fazer uma entrevista de emprego. Dias atrás, um entrevistador pediu que ele dissesse qual era seu animal espiritual:

"Uma gazela", ele respondeu./ TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTIZOU.

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