Edgar Su/ Reuters
Edgar Su/ Reuters

Denúncias de abuso psicológico perturbam mundo do nado sincronizado

Treinadores de todo o mundo do esporte, hoje conhecido como nado artístico, estão enfrentando acusações de intimidar, assediar e abusar psicologicamente de atletas

Jeré Longman e Gillian R. Brassil, The New York Times

12 de março de 2021 | 20h00

Alguns anos depois de competir no nado sincronizado nos Jogos Olímpicos de Londres em 2012, Szofi Kiss, da Hungria, começou a trabalhar com uma técnica da Rússia, que ela identificou apenas pelo primeiro nome, como Natalia. A treinadora, segundo Szofi, separou algumas das integrantes de seu grupo de treinamento e as denominou de "Equipe Gordinha", às vezes não deixava que elas jantassem e dizia: "Vocês me dão nojo" e "Estou enjoada de olhar para vocês", quando as nadadoras saíam da piscina após os treinos. Szofi, agora com 26 anos, descreveu as táticas da treinadora como "terror emocional".

Natalia Tarasova, a treinadora da seleção húngara naquele período e a única treinadora chamada Natalia listada nas atas das reuniões da federação artística húngara nesses anos, não retornou as solicitações de entrevista. Mas nadadores sincronizados de elite - que são em sua maioria mulheres, com poucos homens no nível de elite - rotineiramente sofrem bullying, assédio e abuso psicológico de treinadores homens e mulheres, mais de 100 atletas em atividade e ex-atletas de mais de uma dúzia de países disseram em entrevistas recentes com o The New York Times e outros veículos de comunicação e em postagens de mídia social e blogs.

Com as Olimpíadas de Tóquio se aproximando em julho, o nado artístico, como o esporte agora é conhecido, se vê inundado por um escândalo que veio à tona recentemente no Canadá e em um punhado de outros países. Nadadores entrevistados descreveram uma cultura doentia de magreza e transtornos alimentares em uma modalidade que inevitavelmente fomenta a tensão entre a arte e o esporte. Impressão artística, aparência e contorno corporal contam na pontuação dada pelos juízes.

“Se você não é alta e supermagra - basicamente se não parece uma modelo - com a pele clara, você não tem chance de chegar ao nível mais alto”, disse Myriam Glez, 40 anos, ex-CEO do USA Synchronized Swimming e atleta em duas olimpíadas. Katie Spada, 28 anos, dos Estados Unidos, disse que às vezes era chamada de "baleia moribunda" por um ex-treinador e, aos 13 anos, foi informada  que "Tinha seios como os de Marilyn Monroe e eles estavam atrapalhando". Esses comentários “pareciam muito inadequados, mas foram apenas normalizados na prática”, disse Katie.

A pesquisa publicada como tese de doutorado na UCLA por Alison Williams, 31 anos, uma ex-nadadora artística de elite, indicou que quase dois terços dos integrantes da seleção americana entre os anos 1990 e 2019 que responderam a sua pesquisa foram diagnosticados profissionalmente ou autodiagnosticados com depressão.

"Todos os atletas experimentaram algum nível de abuso emocional”, escreveu Alison.

O técnico de Szofi nas Olimpíadas de 2012, um compatriota húngaro chamado Gábor Szauder, um dos poucos técnicos homens no nível de elite, está agora sob intenso escrutínio como técnico da seleção de natação artística canadense. No outono passado, ele foi acusado por cinco nadadores de fazer comentários machistas, humilhar atletas por seu peso e cometer outros comportamentos inadequados. Desde então, ele enfrentou críticas semelhantes de nadadores e dirigentes da Eslováquia, onde trabalhou como treinador de 2013 a 2018, antes de partir para o Canadá.

Na terça-feira, um processo foi aberto em Montreal por cinco ex-nadadoras de elite, acusando o Canada Artistic Swimming, o órgão regulador do país, de não oferecer um ambiente seguro e de negligenciar o comportamento abusivo de Szauder e de treinadores anteriores.

O Canada Artistic Swimming e Szauder negaram qualquer irregularidade. Eles não responderam imediatamente aos pedidos de comentários sobre o processo. Szauder também não respondeu às tentativas anteriores de contactá-lo. A Federação Internacional de Natação (FINA), que regulamenta o esporte,  também não respondeu imediatamente a uma solicitação de posicionamento quanto ao processo ou a vários pedidos para comentar a respeito da situação  conturbada do nado artístico.

A ação - que visa o status de ação coletiva e compensação financeira por “danos morais” - reflete uma tentativa de sanar um esporte que buscava mudar sua imagem depois que treinadores foram acusados de maltratar atletas na Espanha, México, EUA e outros países. Os nadadores parecem cada vez menos dispostos a se submeter a tratamentos degradantes de treinadores, cujo comportamento é frequentemente descrito, em parte, como um resquício de táticas empregadas no antigo bloco oriental e na China, outra potência artística da natação.

O nado artístico passou a fazer parte dos Jogos Olímpicos em 1984 e os russos têm dominado o esporte, vencendo todas as competições de equipes e duplas desde 2000. Muitos treinadores de ponta são de países que já estiveram na esfera da influência soviética.

As verificações de antecedentes não são uniformes entre os países, dizem as autoridades. Os treinadores acusados costumam se deslocar de um país para outro com poucas ou nenhuma consequência.

Adam Andrasko, o atual CEO da USA Artistic Swimming, disse que aceitou o cargo em 2018 sabendo que o esporte como um todo "precisava ter uma visão cultural diferente". Os esforços nos EUA e em outros lugares têm incluído campanhas de diversidade, seminários sobre nutrição e o desenvolvimento de uma declaração de direitos dos atletas.

Até recentemente, nadadores artísticos - atletas excepcionais capazes de prender a respiração por mais de um minuto durante treinos de rotinas - tendiam a não falar sobre o tratamento abusivo dos treinadores. Eles ascendem ao nível de elite na adolescência e dizem que muitas vezes se sentem impotentes ao abordar os dirigentes, que podem parecer mais preocupados com os resultados do que com a proteção dos atletas. Reclamar é arriscar perder financiamento e uma vaga na equipe. Mas essa relutância em falar começou a se transformar em um ousado despertar.

Em setembro de 2020, o Canadá fechou temporariamente seu centro nacional de treinamento de nado artístico em Montreal, depois que atletas e alguns treinadores de clubes reclamaram sobre um ambiente de treino tóxico lá. Cinco nadadoras apareceram no canal de TV canadense CBC e acusaram Szauder de fazer comentários sexuais inapropriados e envergonhar atletas sobre seu peso a ponto de elas terem ataques de pânico. Ele também foi acusado de fazer comentários islamofóbicos, como dizer que todos os muçulmanos são extremistas e falar para as nadadoras que elas deveriam aprender a cozinhar e limpar para seus homens ou não seriam desejadas.

Uma nadadora que falou com a CBC, Sion Ormond, 21 anos, é a requerente no processo contra o Canada Artistic Swimming. Sion disse em uma entrevista ao The Times que Szauder, insatisfeito com o aquecimento em uma competição de 2019 na China, disse às nadadoras que “se continuássemos nadando assim, ele nos bateria com tanta força que não saberíamos o que aconteceu.” Mais tarde, foi sugerido que Szauder queria dizer que ele iria atingir as nadadoras com práticas difíceis, mas Sion disse que ela se sentia fisicamente ameaçada.

Em outro incidente, Sion afirmou que Szauder disse a ela: "Sion, feche o zíper do seu moletom antes que eu fique muito excitado." Tal comportamento de Szauder foi desculpado pelas autoridades canadenses, segundo Sion, como uma diferença cultural porque ele era europeu. Ela se aposentou no verão passado porque achou o ambiente de treinamento insuportável.

Em outubro de 2020, uma organização independente dedicada a eliminar os maus-tratos no esporte, chamada ITP Sport, revisou as acusações feitas pelas nadadoras canadenses. Seu relatório apontou “experiências de abuso psicológico, bullying, negligência, assédio sexual, discriminação e uma cultura geral de medo”.

Alguns nadadores em atividade e ex-nadadores continuam apoiando Szauder. Szofi, a nadadora húngara que foi treinada por Szauder durante sua adolescência, disse que não experimentou nenhum dos comportamentos alegados pelas nadadoras canadenses. Ela disse que Szauder foi uma figura paterna que elevou sua carreira ao nível olímpico e descreveu seu estilo de trabalho como "completamente normal".

As nadadoras artísticas canadenses deixaram claro que o comportamento abusivo por parte dos técnicos e a ridicularização do corpo delas começaram antes de Szauder se tornar o técnico da seleção canadense. Uma conta do Instagram, @mental_abuse_nac, foi criada recentemente para que os atletas expressem suas preocupações. Mais de 50 responderam anonimamente.

Mais de 50 nadadores artísticos de 16 países foram entrevistados pelo The Times. Alguns disseram que foram forçados a realizar posições de alongamento desconfortáveis, como espacates, até chorarem. Katie, dos EUA, disse que, aos 13 anos, certa vez foi alongada com tanta força por um técnico que precisou de uma cirurgia no quadril.

Colheres, tesouras e outros objetos de metal usados como artefatos para que nadadores possam escutar marcações enquanto estão debaixo d'água são às vezes atirados nos atletas por treinadores chateados. E os nadadores às vezes têm espetos de madeira colados na parte de trás das pernas durante os treinos. Os espetos podem furá-los se as pernas não forem mantidas retas durante o treino.

Olivia Zhang, 30 anos, que já competiu pela seleção chinesa, disse que seu treinador usou uma barra de metal para acertar seu joelho quando sua perna não estava totalmente estendida para fora da água durante o treino, deixando uma cicatriz. “Toda vez que eu olho para ela, isso me traz lembranças desagradáveis”, disse Olivia.

TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA  

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