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Antero Greco
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Dérbi indestrutível

A manchete da Edição de Esportes que você agora tem nas mãos choca, embute terrível distorção, mas é real. Infelizmente. O clássico que Corinthians e Palmeiras disputarão daqui a pouco no Pacaembu tende a apresentar mais riscos nas arquibancadas, nas ruas, no metrô e menos dentro de campo. O perigo está no comportamento de parte das torcidas, não no desempenho que a rapaziada de Mano Menezes e a de Gilson Kleina poderão mostrar, na oitava rodada do Paulista.

ANTERO GRECO, O Estado de S.Paulo

16 de fevereiro de 2014 | 02h03

Eis o desvirtuamento. Não é de hoje que, ao se falar no dérbi paulista, primeiro vem à mente a possibilidade de que ocorram incidentes com o público. Em segundo plano fica a discussão a respeito da situação das equipes, a colocação delas na tabela do torneio, as alternativas táticas à disposição dos treinadores, os candidatos a heróis da jornada. Enfim, a preocupação com o joguinho de bola, com os protagonistas verdadeiros de uma saga formidável que começou em 1917.

Falei em distúrbios com a povo?! Vou me retratar. A maioria vai ao vetusto estádio municipal a fim de divertir-se, de gritar gol, de incentivar, de xingar o juiz (é de lei), de curtir vitória sobre o rival histórico mais ferrenho e de voltar para casa são e salvo, com a alma lavada - e, se possível, o corpo encharcado, para aliviar a onda de secura que nos torrou neste verão.

A minoria enxerga o confronto mítico entre alvinegros e alviverdes como novo capítulo de guerra sem fim, feita de ódio, sangue, vendettas e mortes. Não são muitos os gladiadores do mal. Porém, o poder que essa gente tem de espalhar medo supera a urbanidade dos demais cidadãos. Por isso, ganha espaço, preocupa dirigentes, jogadores e autoridades e assume posição de protagonistas que nunca deveria ter.

O auge do absurdo está na previsão de que 30 mil espectadores ocuparão a estrutura que já recebeu milhares de partidas e foi palco de centenas de decisões. Plateia suficiente para deixar PM em alerta, com um batalhão de homens deslocados para manter a ordem. O Pacaembu já teve Palmeiras x Corinthians com o dobro de gente, com torcedores a espirrar pelo ladrão, sem que houvesse episódios dignos de registro. No máximo, desavenças entre esquentadinhos ou bebuns.

Dezenas de vezes estive no "Paulo Machado de Carvalho" (fica pomposo citar o nome oficial) para acompanhar o dérbi, na condição de admirador do esporte, muito antes de sonhar em ser jornalista. E me diverti a valer até com as provocações recíprocas e com a ameaça de um ou outro sopapo, logo sufocada pela turma do deixa-disso.

Numa ocasião, fiquei com pai, tios e primos queridos nos degraus sob a Concha Acústica - onde hoje há o Tobogã -, bem atrás das traves nas quais Barbosinha levou dois gols de falta de Tupãzinho, nos idos dos anos 60. O infeliz goleiro corintiano foi escrachado até a vigésima geração, houve bate-boca aqui, outro ali. Após o apito final, todo mundo pra casa, corintianos e palmeirenses lado a lado. Em paz.

Não, caro amigo, nem venha com a argumento de que descambo para o saudosismo. Falo de civilidade. Garanto para você que ambiente cortês pode ser resgatado, desde que haja vontade para tanto. Muito bacana a iniciativa de dirigentes e técnicos dos dois times darem entrevista juntos, em demonstração de que a rivalidade se limita às quatro linhas. Gesto decente. Porém, inócuo, uma vez que não sensibiliza a parcela radical (e mínima) das duas nações. A turma da pesada pouco se lixa para os apelos de cordialidade. No entanto, por mais que jogue contra, morrerá decepcionada, pois Corinthians x Palmeiras é indestrutível.

Na crônica de amanhã, o foco incidirá sobre Valdivia e suas estripulias, sobre Romarinho e a sorte danada que tem no clássico, sobre Alan Kardec e o desejo de convencer Felipão a dar-lhe chance na seleção, sobre a boa fase do Palmeiras, sobre o início da reação do Corinthians, sobre os gols do duelo que encanta a vida de milhões de palestrinos e a Fiel. Assim espero. Tomara, faço figa.

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