Dérbi milagroso

Quando um cronista escreve que é a maior roubada cravar favoritismo num Palmeiras x Corinthians, sempre tem gente disposta a torcer o nariz e a provocar: "Ficou em cima do muro." Costumo responder que só diz tamanho disparate quem não conhece a história do dérbi paulistano e muito menos sabe avaliar sua magia. Pois o resultado de ontem à tarde, no Pacaembu, foi a enésima comprovação de que se trata de confronto especial, mágico, diferente. Não há nada igual nem que o supere. É fato.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

07 de fevereiro de 2011 | 00h00

Qualquer sujeito sensato daria a vitória palmeirense como certa. Quem haveria de contestar tal prognóstico, já que os acontecimentos recentes e a trajetória de ambas as equipes assim o indicavam? Um entrou como líder e com uma quina de vitórias consecutivas. Tranquilo, sereno, em paz com a torcida. O outro foi a campo alterado, remendado, dizimado, pressionado, xingado, humilhado. Era "Tolíder x Toeliminado", segundo as gozações da semana.

O dérbi continua a ser milagroso, com todo respeito a San Gennaro e São Jorge, padroeiros nos respectivos Parques. Se bem que, desta vez, o santo foi o Júlio César alvinegro e não o costumeiro São Marcos alviverde. O goleiro corintiano fez pelo menos cinco defesas cinco estrelas - a última delas, quase aos 47 minutos do segundo tempo, num chute à queima-roupa de Kléber. Para sua felicidade, e a de milhões de fiéis, no rebote o jovem Patrik ainda cabeceou no travessão; na sequência, a bola bateu nas costas do Chicão e foi aninhar-se, mansa, nos braços de Júlio César!

A vitória do Corinthians por 1 a 0 foi imerecida? Se se levar em conta o desempenho das duas equipes, talvez o empate sintetizasse melhor a partida. Mas esse papo de justo x injusto serve mais para alimentar discussões de botequim ou nos antigos (e felizmente extintos) fumódromos das firmas. Não vale nem o argumento de que o melhor em campo foi Júlio César, para provar superioridade palmeirense. Ué, se a função do goleiro é evitar o gol, e se ele faz isso muito bem, credite-se o mérito para seu clube e não para o adversário.

O Palmeiras ajusta-se devagar, com uma formação modesta, que pra mim ainda corre por fora na briga pelo título paulista. Um time montado essencialmente com operários da bola e não com solistas. Foi com espírito combativo que encarou um adversário grogue com a desclassificação na Libertadores. Desta vez, ao contrário das rodadas anteriores, não funcionou a boa movimentação de Tinga, Kléber, Dinei, Luan, o quarteto que tem sido titular de Felipão.

Marcos Assunção, de volta depois de dez dias de molho, foi discreto nas bolas paradas, a sua especialidade. Cicinho e Rivaldo apoiaram o ataque, sem muito sucesso. O miolo da zaga, com Maurício Ramos e Thiago Heleno, se deu bem, enquanto o Corinthians contava com Ramirez e Edno. A entrada de William e Morais, mais leves e velozes, expôs a lentidão da dupla. Numa troca de passes curtos, surgiu o gol decisivo: Morais tocou para Alessandro, que entrou livre na área para marcar.

O Corinthians manteve a defesa que voltou derrotada da Colômbia e com o meio-campo praticamente intacto. Ficaram fora Ronaldo e Dentinho, poupados, assim como Roberto Carlos. Entrega e dedicação foram os méritos da turma de Tite - postura combativa que faltou nos dois jogos contra o Deportes Tolima. Não deu show, mas suou, combateu, e era disso que precisava nesse momento.

O dérbi revalidou a tradição de recuperar aquele que havia entrado em parafuso e estava por baixo. O folclore do confronto é rico em exemplos de recuperação. Em 1999, o Corinthians ganhou um Paulista quatro dias depois de o Palmeiras faturar a Libertadores. No ano seguinte, um Palmeiras bem mais frágil tirou o Corinthians da final da Libertadores. E assim oscila a gangorra...

A crise no Parque São Jorge não morreu de vez, mas a vitória ajudará na reação. A torcida saiu com a alma lavada, porque não deu gostinho para os rivais. E ainda tem quem ache que Corinthians x Palmeiras perdeu o charme! Conversa fiada.

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